Sábado, 26 de Setembro de 2026
19°

Tempo limpo

Sete Lagoas, MG

Especiais Sete Lagoas

Livro-reportagem investiga o destino dos fósseis de Sete Lagoas que atravessaram o Atlântico

Pesquisa de Caio Pacheco e Eduardo Teixeira rastreia documentos, coleções e registros científicos preservados em Copenhague e Paris e reabre uma história iniciada pelas expedições de Peter Wilhelm Lund no século XIX

26/09/2026 às 07h56
Por: Redação
Compartilhe:
Livro-reportagem investiga o destino dos fósseis de Sete Lagoas que atravessaram o Atlântico

Um dos capítulos mais intrigantes da história científica de Sete Lagoas está sendo reconstruído a partir de documentos, coleções e registros preservados a milhares de quilômetros do município. O livro-reportagem “Os fósseis perdidos de Sete Lagoas”, de Caio Pacheco e Eduardo Teixeira, investiga o destino de fósseis encontrados nas cavernas da região no século XIX e que, ao longo do tempo, chegaram a importantes instituições científicas da Europa.

A investigação tem como um de seus principais eixos a Coleção Lund, preservada no Museu de História Natural da Dinamarca, em Copenhague. O acervo reúne parte expressiva do material coletado pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund durante suas pesquisas nas cavernas de Minas Gerais.

Segundo o Museu de História Natural da Dinamarca, a coleção reúne aproximadamente 100 mil ossos de grandes vertebrados, 2,5 milhões de ossos de pequenos vertebrados e cerca de 1.300 blocos de brecha contendo fragmentos não preparados. O conjunto representa uma das mais importantes coleções paleontológicas produzidas a partir das pesquisas realizadas por Lund no Brasil.

A trajetória desse acervo também faz parte da investigação. Segundo estudo publicado por Seersholm e colaboradores na revista Ecology and Evolution, Lund decidiu, por volta de 1845, encaminhar sua coleção à Dinamarca. As caixas foram transportadas por terra, em mulas, de Lagoa Santa até o Rio de Janeiro, onde foram embarcadas para Copenhague. A coleção chegou à Dinamarca em 1848, pouco antes da morte do rei Christian VIII, a quem o acervo havia sido destinado.

Para os autores de “Os fósseis perdidos de Sete Lagoas”, a dimensão da Coleção Lund ajuda a compreender a importância das cavernas mineiras para a paleontologia mundial e levanta uma questão central: existem, entre as coleções europeias, materiais cuja documentação possa estabelecer uma ligação direta com as cavernas da região de Sete Lagoas?

A pista de Copenhague

A pesquisa sobre a Coleção Lund revela a dimensão e a complexidade de um acervo formado no século XIX e que continua despertando interesse científico.

Parte do material permaneceu durante décadas armazenada em caixas, enquanto uma parcela dos fósseis foi formalmente estudada e catalogada. A utilização de novas tecnologias, entretanto, demonstra que mesmo fragmentos aparentemente pouco informativos podem conservar dados científicos relevantes.

Um exemplo é o trabalho publicado em 2021 por Frederik V. Seersholm e outros pesquisadores, na revista Ecology and Evolution. O estudo analisou aproximadamente 100 pequenos fragmentos ósseos da Coleção Lund e utilizou técnicas de DNA antigo e metabarcoding para identificar espécies.

Os pesquisadores identificaram 17 espécies: 11 mamíferos, duas aves, um peixe e três anuros.

Há, porém, uma distinção importante para a investigação de “Os fósseis perdidos de Sete Lagoas”: o material analisado no estudo de Seersholm et al. era proveniente da Lapa da Escrivânia nº 5, em Lagoa Santa, e não de Sete Lagoas.

O trabalho, portanto, não constitui uma evidência de fósseis de Sete Lagoas na amostra analisada. Sua importância para o livro está em demonstrar o potencial científico que permanece em coleções históricas de Lund. Novas tecnologias podem permitir que pequenos fragmentos, guardados por quase dois séculos, revelem informações que não estavam disponíveis aos pesquisadores do século XIX.

É justamente nesse universo de caixas, etiquetas, números antigos de coleção e registros de procedência que os autores procuram identificar possíveis materiais relacionados às cavernas de Sete Lagoas.

A investigação acompanha referências históricas a locais como Lapa Grande de Genette, Fazenda Genette ou Ginette, além de outras cavernas e localidades mencionadas em documentos relacionados à circulação de fósseis brasileiros no século XIX.

De Sete Lagoas a Paris

O segundo eixo da investigação conduz os autores ao Muséum national d’Histoire naturelle, em Paris.

O banco de dados científico da instituição registra materiais brasileiros relacionados à Coleção Claussen. Entre os registros aparecem referências de procedência como “caverne près de Sette Lagoas”, “Sette Lagoas” e, de maneira particularmente significativa para a investigação, “Lappa de Genette”.

Alguns desses registros estão associados a fósseis ou restos atribuídos a grandes mamíferos extintos.

Um dos registros parisienses corresponde ao espécime MNHN.F.BRD28, identificado como Catonyx cuvieri, uma espécie extinta de preguiça-gigante. O banco de dados do museu informa que o exemplar pertence à coleção original de Claussen e apresenta como procedência geral “Cavernes du Brésil”.

A documentação, entretanto, exige cautela. Não é possível transformar automaticamente cada exemplar da Coleção Claussen em um fóssil descoberto pessoalmente por Lund, nem afirmar que todo material brasileiro da coleção tenha origem em Sete Lagoas.

É justamente essa distinção entre coletor, localidade, procedência, coleção original e instituição depositária que constitui uma das questões centrais da investigação.

O livro procura estabelecer, sempre que a documentação permitir, a trajetória dos espécimes e identificar quais registros podem ser efetivamente relacionados às cavernas de Sete Lagoas.

A história por trás dos fósseis

Peter Wilhelm Lund chegou a Minas Gerais no século XIX e transformou as cavernas da região em um dos mais importantes campos de investigação da paleontologia mundial.

Suas pesquisas permitiram identificar uma extraordinária fauna pleistocênica, incluindo preguiças-gigantes, gliptodontes, felinos e outros grandes mamíferos extintos.

O material reunido por Lund tornou-se posteriormente parte de uma das mais importantes coleções paleontológicas brasileiras existentes fora do país.

Mas a história não terminou com Lund.

Ao reconstruir a trajetória dos fósseis, “Os fósseis perdidos de Sete Lagoas” acompanha também personagens envolvidos na circulação de espécimes brasileiros no século XIX, entre eles Peter Claussen e Antoine Guillemin, além dos registros relacionados às coleções do Museu de Paris.

A investigação procura responder a uma pergunta aparentemente simples, mas de grande complexidade histórica e científica:

O que aconteceu com os fósseis encontrados nas cavernas de Sete Lagoas depois que deixaram o território brasileiro?

Uma investigação entre documentos e cavernas

O livro-reportagem cruza cartas, mapas, relatos históricos, catálogos de museus, números de coleção e bases de dados científicas com a geografia atual de Sete Lagoas.

A proposta é reconstruir uma espécie de mapa histórico dos fósseis: onde foram encontrados, quem os retirou, quem os transportou, para onde foram enviados, em qual coleção foram incorporados e onde podem estar atualmente.

Nesse percurso, Copenhague e Paris deixam de ser apenas destinos de uma viagem científica do século XIX e passam a funcionar como verdadeiros arquivos da história paleontológica de Minas Gerais.

A pesquisa também procura diferenciar aquilo que está documentalmente comprovado daquilo que permanece como hipótese ou pista de investigação.

Essa cautela é particularmente importante porque os registros históricos nem sempre apresentam as localidades com a mesma nomenclatura utilizada atualmente. Nomes de fazendas, cavernas e localidades podem ter mudado ao longo do tempo, enquanto etiquetas e catálogos antigos podem registrar apenas referências genéricas.

Por isso, estabelecer a ligação entre um fóssil preservado em uma coleção europeia e uma determinada caverna de Sete Lagoas exige o cruzamento de diferentes fontes históricas e científicas.

Uma história de Sete Lagoas preservada na Europa

“Os fósseis perdidos de Sete Lagoas” pretende aproximar o leitor de uma história que reúne ciência, jornalismo, memória, paleontologia, história e patrimônio científico.

Mais do que contar a trajetória de Peter Lund, o livro procura investigar o que aconteceu com os vestígios materiais de suas pesquisas e com outros fósseis relacionados às cavernas da região.

A investigação também procura recolocar Sete Lagoas no contexto das grandes descobertas paleontológicas de Minas Gerais e verificar se parte dessa história permanece preservada em gavetas, caixas, coleções, catálogos e bases de dados de instituições científicas europeias.

A Coleção Lund demonstra que materiais coletados no século XIX continuam capazes de produzir novas descobertas científicas. Ao mesmo tempo, os registros de Paris mostram que documentos de antigas coleções podem guardar informações fundamentais sobre a procedência de fósseis brasileiros.

É nesse cruzamento entre documentos históricos e ciência contemporânea que se desenvolve a investigação.

“Os fósseis perdidos de Sete Lagoas” é, portanto, uma investigação sobre fósseis, mas também sobre memória, patrimônio científico e o percurso de descobertas que atravessaram o Atlântico há quase dois séculos.

Sobre os autores

Caio Pacheco é jornalista e escritor mineiro, com carreira iniciada em 1988, atuando em jornais, revistas, televisão, mídia digital, assessoria de imprensa, produção editorial e pesquisa histórica. É autor de trabalhos voltados à memória e à identidade de Sete Lagoas e região.

Eduardo Teixeira é professor e pesquisador, coautor do livro-reportagem e participante da investigação histórica e científica que sustenta a obra.

Serviço

Livro: Os fósseis perdidos de Sete Lagoas
Autores: Caio Pacheco e Eduardo Teixeira
Gênero: livro-reportagem
Tema: Peter Wilhelm Lund, paleontologia, cavernas, fósseis, história e patrimônio científico de Sete Lagoas
Eixos da investigação: Coleção Lund; Museu de História Natural da Dinamarca; Muséum national d’Histoire naturelle de Paris; Peter Claussen; Antoine Guillemin; e cavernas e localidades históricas da região de Sete Lagoas.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Sete Lagoas - MG
Sobre o município Notícias de Sete Lagoas - MG
Sete Lagoas, MG Atualizado às 05h01 - Fonte: ClimaTempo
19°
Tempo limpo

Mín. 19° Máx. 33°

Dom 35°C 22°C
Seg 35°C 20°C
Ter 36°C 19°C
Qua 37°C 20°C
Qui 36°C 23°C
Anúncio
Horóscopo
Áries
Touro
Gêmeos
Câncer
Leão
Virgem
Libra
Escorpião
Sagitário
Capricórnio
Aquário
Peixes
Anúncio