
Quase três em cada dez eleitores mineiros não têm a biometria cadastrada na Justiça Eleitoral. Nesses casos, ao apresentar o documento com foto, em vez de terem o voto liberado por impressão digital, dependem exclusivamente do reconhecimento do mesário no momento do voto em eleições, como a que acontece neste ano para escolha de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, marcada para 4 de outubro.
Apesar de a ferramenta já ser adotada no país há 18 anos, Minas Gerais é o segundo estado com o menor percentual de eleitores biometricamente ativos, perdendo apenas para o Espírito Santo. Atualmente, 72,83% do eleitorado mineiro tem a impressão digital registrada, o equivalente a 11.719.122 eleitores de um total de 16.091.970. Ou seja, há um contingente superior a 4,3 milhões de pessoas aptas a votar (27,17%), mas sem o cadastro digital.
O percentual mineiro é superior apenas ao do Espírito Santo, que aparece na última posição, com 67,57% dos eleitores com biometria cadastrada. Nos demais estados, a cobertura é de pelo menos 80%, com a grande maioria superando 90% do eleitorado. No país, 87,66% dos eleitores já contam com a digital coletada, segundo dados da Justiça Eleitoral de dezembro de 2025.
A extensão do território mineiro e o grande número de municípios seriam explicações para ainda haver tantas pessoas sem o cadastramento biométrico eleitoral, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG). “São 853 municípios, sendo que 254 são sedes de zona eleitoral e outros 599 não têm cartórios eleitorais. Em eleitorado, somos o segundo maior do país, atrás apenas de São Paulo. O desafio de Minas, aliás, é semelhante ao de São Paulo, que já tem 88% de biometria, mas ainda precisa cadastrar cerca de 4 milhões de eleitores”, afirmou o órgão por meio da assessoria de comunicação.
Ainda segundo o TRE-MG, quando o cadastramento biométrico começou em Minas, em 2009, o tribunal optou por implementá-lo de forma gradual, com grupos de municípios incorporados a cada ano. Até o início de 2020, o cadastramento era feito por meio de revisão do eleitorado, com obrigatoriedade de comparecimento do eleitor dentro de um prazo determinado, sob pena de cancelamento do título.
A estratégia previa, segundo a Corte, deixar Belo Horizonte, a maior cidade do estado, para a etapa final do processo, de modo a permitir que os eleitores comparecessem gradualmente.
No entanto, o cadastramento biométrico foi suspenso em março de 2020 em razão da pandemia de Covid-19 e só foi retomado em junho de 2023, em todo o país. Nesse intervalo, lembrou o órgão, todos os alistamentos, transferências e revisões de títulos de eleitor foram realizados sem a coleta de biometria. A situação ocorreu em todo o país.
Após a pandemia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também alterou o entendimento e barrou a realização de revisões biométricas, o que impede os tribunais regionais de estabelecer a obrigatoriedade do procedimento. Por isso, para votar neste ano, o eleitor não precisará ter a biometria cadastrada. Basta estar com o título regular e apresentar um documento oficial com foto no dia da eleição, como RG, CNH ou passaporte.
A biometria é um sistema de identificação que utiliza impressões digitais, assinatura e fotografia do eleitor para confirmar sua identidade no momento da votação. O objetivo é evitar fraudes, impedir que uma pessoa vote no lugar de outra e reduzir erros na identificação. Segundo o TSE, a biometria é um instrumento de segurança adicional e também contribui para aumentar a confiança no processo eleitoral ao diminuir a interferência humana na conferência da identidade do eleitor na seção de votação.
O baixo índice de cadastramento biométrico no estado levou o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) a intensificar uma série de ações para ampliar a cobertura. A aposta foi, principalmente, em serviços itinerantes que buscaram regiões que não possuem cartórios eleitorais.
De acordo com o órgão, as iniciativas foram adotadas desde a retomada do cadastramento biométrico, em junho de 2023, mas ganharam reforço em julho de 2025, com a criação do Plano Integrado da Biometria. Entre as medidas, segundo a Corte Eleitoral, foram realizados atendimentos itinerantes em bairros de Belo Horizonte e em distritos e municípios que não contam com cartórios eleitorais. Também foi feita a Caravana da Biometria, com um ônibus que percorreu dez cidades mineiras sem cartório eleitoral e realizou mais de 28 mil atendimentos em menos de cinco meses.
O resultado chegou: foram cerca de 730 mil novas biometrias cadastradas ao longo de 2025, sendo 500 mil apenas no segundo semestre, após a implementação do plano. Outra frente foi a ampliação do horário de atendimento ao eleitor. Até junho de 2025, o funcionamento das unidades eleitorais em todo o estado era das 12h às 17h. Em Belo Horizonte, passou a ser das 9h às 17h, assim como em diversas zonas eleitorais do interior, que também estenderam o expediente.
Para o advogado Paulo Henrique Studart, especialista em direito público, ampliar o uso da biometria reduz o risco de fraudes no momento da votação. “Quando você não tem o sistema de biometria, você fica sujeito à aferição da identidade da pessoa com base na apresentação do documento de identificação e com a aferição da foto pelo mesário. O sistema biométrico diminui esse risco humano na constatação de que a pessoa que está votando realmente é aquela mesma”, avaliou.
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