
A construção da Usina de Beneficiamento de Alimentos avança no município com o objetivo de fortalecer o combate à insegurança alimentar e ampliar o acesso a alimentos para a população em situação de vulnerabilidade. O projeto prevê o processamento de sorgo, soja e biomassa, transformando a produção agrícola em alimento e dignidade para quem mais precisa.
A iniciativa é conduzida sob a liderança do médico Gilmar Reis e se inspira no legado solidário do Padre Adriano, reconhecido por ações voltadas ao amparo social. De acordo com os organizadores, a obra já apresenta avanços significativos, mas a etapa final depende do apoio da sociedade.
A usina conta com aval do Ministério Público e com a execução técnica da empresa Ecoprem 7L, garantindo legalidade e capacidade operacional ao projeto. A mobilização agora busca arrecadar recursos para viabilizar a conclusão da estrutura e o início das atividades.
As doações podem ser feitas por meio do link oficial https://doar.dsackett.org. Qualquer contribuição é considerada fundamental para transformar os equipamentos em alimento no prato de famílias que enfrentam a fome. A organização também pede o apoio da comunidade na divulgação da campanha, reforçando que a união de esforços é decisiva para o sucesso da iniciativa.
Algumas histórias não acabam - Elas apenas esperam quem tenha coragem de continuá-las.
Sete Lagoas carrega uma história marcada por trabalho, crescimento e fé. Mas também carrega, como tantas cidades brasileiras que atravessaram o último século, feridas profundas de desigualdade social e pobreza urbana. Na segunda metade do século XX, período de acelerada transformação econômica e urbana, a cidade viveu um paradoxo: enquanto crescia industrialmente, via se expandirem bairros periféricos sem infraestrutura adequada, saneamento, segurança alimentar ou políticas públicas consistentes de proteção à infância.
Nos anos 1960 a 1990, Sete Lagoas experimentava um intenso processo de urbanização. A migração do campo para a cidade, impulsionada pela mecanização agrícola e pela promessa de empregos industriais, levou milhares de famílias a se estabelecerem em regiões periféricas, muitas vezes sem acesso a serviços básicos. Bairros como Belo Vale , Cidade de Deus, Montreal, Itapuã, Orozimbo Macedo, Morro Vermelho e regiões próximas às antigas áreas ferroviárias tornaram-se espaços de acolhimento improvisado de populações vulneráveis.
Naquela época, a fome raramente aparecia nas estatísticas sociais oficiais como hoje. Mas estava presente nas casas, nas filas por doações, nas crianças de baixo peso e estatura, nas mães exaustas e nos idosos esquecidos. A desnutrição infantil e fome eram tratados como destino, não como problema social estruturado. E foi exatamente contra essa naturalização da miséria que o Padre Adrianus ou carinhosamente "abrasileirado" para padre Adriano se insurgiu. Padre Adriano se tornou não apenas um líder religioso, mas um verdadeiro símbolo de cuidado, dignidade e compromisso radical com os mais pobres.
Um padre que escolheu morar onde a dor estava
Vindo da Europa - da Holanda, segundo os registros e a memória local - Padre Adriano chegou a Sete Lagoas com uma formação sólida, fé profunda e uma visão pastoral incomum para a época. Em vez de limitar sua atuação aos templos, escolheu viver entre os pobres, mudando-se para regiões carentes da cidade, compartilhando das mesmas dificuldades: ruas de terra, ausência de saneamento, insegurança e escassez.
Um gesto singelo, mas de profundo significado, o qual marcou gerações. Não se tratava apenas de ajudar os pobres, mas de ser parte da comunidade, de compreender e vivenciar os processos sociais que colocam à margem da sociedade milhares de pessoas. De entender a carência e necessidade não como abstração moral, mas como experiência cotidiana a qual norteia a busca por soluções.
A Vaca Mecânica: quando a nutrição virou resistência
Foi nesse contexto que nasceu um dos projetos sociais mais emblemáticos da história de Sete Lagoas: a Vaca Mecânica. Inspirado em iniciativas internacionais e no conhecimento já existente sobre o valor nutricional da soja, o Padre Adriano vislumbrou a possibilidade de minorar a fome crônica e combater a desnutrição infantil e do adulto, produzindo alimento de alto valor nutricional e de baixo custo. Foi então que juntou esforços para trazer o equipamento para produção de leite de soja. Assim Padre Adriano iniciou um projeto de produção e distribuição de leite de para famílias em situação de extrema vulnerabilidade em Sete Lagoas: O projeto da Vaca Mecânica.
O produto não era, segundo muitos relatos, "agradável ao paladar". Não era doce, não era industrializado, não tinha o apelo sensorial dos alimentos convencionais. Mas tinha algo infinitamente mais importante: proteína de alto valor biológico, energia e capacidade real de combater a fome e a desnutrição.
Padre Adriano acolhia quem batia à sua porta e essa característica marcou o projeto da Vaca Mecânica: milhares de crianças e pessoas famintas foram acolhidas neste projeto. Muitos sobreviveram graças àquela iniciativa. Milhares de famílias encontraram alento em um período em que eram invisíveis aos olhos do Estado e este incapaz de cumprir o seu papel, sendo as políticas públicas insuficientes ou mesmo inexistentes. O leite de soja, oferecido com dignidade e constância, tornou-se símbolo de resistência da população vulnerável Setelagoana contra a fome extrema.
Um legado interrompido, mas nunca esquecido
O Padre Adriano faleceu no início dos anos 2000. Com sua partida, o projeto da Vaca Mecânica, infelizmente, não teve continuidade institucional. Faltaram recursos, apoio estruturado da sociedade organizada e de políticas públicas as quais poderiam absorver aquela experiência exitosa, mas infelizmente ações não foram tomadas. A desesperança tomou conta das pessoas novamente: Falta o Padre Adriano!
Mas o que não se perdeu foi a memória afetiva. Até hoje, ao mencionar seu nome, Sete Lagoas responde com respeito, gratidão e emoção: um reconhecimento, embora tardio, ao seu gigantesco legado. Tive a oportunidade de ler diversos relatos emocionados da experiência de muitos Setelagoanos com o Padre Adriano. Nestes relatos preservados na memória coletiva, em registros informais, em postagens tardias nas redes sociais e em conversas entre gerações, o Padre Adriano permanece como referência moral e humana, como sói ocorrer com os grandes homens.
Décadas depois a fome continua - com outro nome
Avançamos no tempo. O Brasil do século XXI passou por avanços importantes na redução da fome extrema, mas falhou em erradicar a fome crônica e moderada, agora eufemisticamente chamada de "Insegurança Alimentar". Durante a pandemia de COVID-19, eu e outros colegas pesquisadores atuamos em quase 30 cidades com um projeto para combater a COVID-19. Visitamos milhares de lares - dos mais abastados aos mais humildes - e percebemos o quanto a fome avançou, em silêncio, disfarçada e sorrateira, atingindo diretamente as comunidades vulneráveis, especialmente aquelas que dependem de trabalho informal para subsistir. Como fator complicador, os produtos multiprocessados (ricos em carbo-hidratos, gorduras saturadas e outros compostos hidrogenados) passaram a dominar o cardápio das famílias mais carentes, trazendo um preocupante: a desnutrição dissociada do peso: crianças que não estão com baixo peso, mas que apresentam sinais claros de desnutrição micronutricional, atraso cognitivo e dificuldades de aprendizagem.
É a fome invisível, silenciosa, persistente e estrutural.
Foi nesse contexto que nós desenvolvemos o projeto Alimentando Sonhos.
A coincidência que revela continuidade histórica
Embora eu tenha nascido em Sete Lagoas, criado nas redondezas do bairro Canaã, tenha estudado na Escola Estadual Emílio de Vasconcelos Costa na rua Quintino Bocaiúva, não tive o privilégio de ter conhecido o Padre Adriano. Nosso projeto nasceu efetivamente em 2023 e agora estamos iniciando operacionalmente a construção da fábrica social de alimentos, onde produziremos uma mistura alimentar à base de biomassa de banana verde e extrato hidrossolúvel de Soja (o popular "Leite de Soja"). Ao dividir com os amigos mais próximos o projeto ao final de 2023 tive conhecimento da história do Padre Adriano e o seu legado. Mais ainda: o pioneirismo deste benfeitor, procurando soluções alimentares para combater a pobreza extrema e um de seus mais cruéis legados: A Fome.
E as coincidências não pararam por aqui.
O que é aparentemente uma coincidência tem na verdade se revelado uma continuidade histórica.
O Projeto Alimentando Sonhos propõe uma mistura alimentar cientificamente balanceada, baseada em alimentos naturais, com alto valor nutricional, monitoramento de impacto e mensuração de resultados, exatamente aquilo que, de forma intuitiva e visionária o Padre Adriano já fazia isso décadas antes, em um cenário de dificuldades muito além das que enfrentamos para implantar esse projeto.
Em 2.023 adquirimos um terreno para a construção da Fábrica Social de Alimentos, onde além de produzirmos a mistura alimentar para o projeto Alimentando Sonhos, iremos avaliar diversas composições alimentares naturais e minimamente processadas, aprimorando a sua composição e propriedades. O destino escolheu que o local fosse exatamente onde o Padre Adriano iniciou o seu trabalho missionário: na região da antiga Fazenda Morro Vermelho.
Da fé à evidência: o mesmo compromisso, novas ferramentas
A diferença entre ontem e hoje não está no propósito, mas nas ferramentas. A Fé, mola propulsora que impulsionou o Padre Adriano a criar o projeto da Vaca Mecânica e combater a fome crônica, literalmente salvando milhares de famílias e crianças também reside em nosso projeto. Embora alicerçados em dados científicos para consubstanciar o nosso projeto, o eixo principal é exatamente o eixo que moveu o Padre Adriano:
Padre Adriano se foi mas o seu legado permanece vivo nas memórias das pessoas, sobretudo aquelas que em um momento de dor extrema receberam o tão sonhado alimento. Essa semente permanece viva e precisa continuar, pois há muito ainda a percorrer para combater a fome com dignidade, há milhares de crianças em situação de fome infantil, que precisam do alimento nutricionalmente adequado para o seu desenvolvimento e assim criarmos condições para que o ciclo vicioso de pobreza gerando insegurança alimentar e agravando a pobreza seja rompido.
Se Padre Adriano estivesse aqui
É impossível para mim não fazer o exercício simbólico: o que diria o Padre Adriano ao ver este projeto que estamos planejando criar?
A sua experiência, sabedoria e vivência de décadas combatendo a pobreza e a fome certamente teriam muito, mas muito mesmo a nos ensinar. Infelizmente é um aprendizado o qual nos faltará, pois ainda não sabemos como retroceder no tempo!
Mesmo sem poder aconselhar com ele, podemos extrair lições de seu legado, de sua história: Aprender com o seu exemplo de vida em busca de melhores condições para aqueles que não tem voz. Trazer a ciência e trabalhar em busca de soluções alimentares para aqueles que necessitam, com empatia, respeito, compaixão e sobretudo trabalho técnico.
Se eu pudesse falar algo para ele eu diria: "Seu legado não morreu e faremos tudo ao nosso alcance para dar continuidade. Sua semente encontrou terreno fértil e faremos de tudo para que floresça novamente".
Sete Lagoas como território de esperança
A história do Padre Adriano não pertence apenas ao passado. Ela pertence ao presente e, sobretudo, ao futuro. Ao resgatar esse legado, Sete Lagoas reconecta-se com sua própria identidade solidária.
Nosso projeto é uma interseção viva com a história do projeto da Vaca Mecânica. Temos consciência que não estamos partindo do zero, mas dando continuidade a uma idéia grandiosa criada por esse ser iluminado que atuou em Sete Lagoas. Procuraremos seguir adiante, agora com mais responsabilidade ainda e aliando a ciência, para garantir que nenhuma criança precise aprender, crescer ou sonhar com fome. Conheça nossa história: https://www.dsackett.org
Termino este texto do mesmo jeito que iniciei: Algumas histórias não acabam - Elas apenas esperam quem tenha coragem de continuá-las...
PS.: A repetição, em várias partes do texto, da expressão "Padre Adriano" foi proposital: Trazer à memória esta personalidade iluminada.
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