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Pets não convencionais, como cobras, tem conquistado mais pessoas

Dono de criatório de serpentes reconhece um crescimento de interesse de tutores por animais silvestres e exóticos

05/10/2020 08h49
Por: Redação Fonte: O Tempo
Apaixonado por animais domésticos, o cinegrafista Tiago Betran cuida de duas jiboias, dois gatos, uma cadela e uma coelha Foto: Arquivo Pessoal
Apaixonado por animais domésticos, o cinegrafista Tiago Betran cuida de duas jiboias, dois gatos, uma cadela e uma coelha Foto: Arquivo Pessoal

Personagem folclórica no Brasil de meados do século passado, a capixaba Dora Vivacqua, que ficou conhecida pelo nome artístico Luz Del Fuego, rompeu com tradições e com o conservadorismo ao defender ideias progressistas – o que lhe rendeu a pecha de ser, no mínimo, excêntrica. Vanguardista, a dançarina emprestava sua voz para causas que hoje são abraçadas pelo feminismo. Todavia, mais de 50 anos depois de sua morte, algumas das pautas por ela incorporadas só agora começam a ser postas, ainda que timidamente, de maneira mais comum entre os brasileiros. É o caso da criação de animais não convencionais, como as jiboias. Luz Del Fuego, que costumava visitar um serpentário em Belo Horizonte no período em que viveu na cidade, possuía duas da espécie, chocando a sociedade da época e recebendo aplausos quando se apresentava interagindo com os animais. 

Atualmente, mesmo que a procura por animais não convencionais venha crescendo, o convívio de jiboias com humanos ainda causa furor. Recentemente, um vídeo em que Mônica Cunha, 59, passeia com uma de suas serpentes no centro de Belo Horizonte viralizou nas redes sociais. Na gravação, as reações de espanto são maioria. Quando falou à reportagem, a tutora dos bichos revelou que costuma levá-los até mesmo ao cinema. Nos comentários, prevaleceram as manifestações de medo. É para evitar esse tipo de exposição que o cinegrafista Tiago Betran, 36, pouco sai com as suas jiboias. “É como colocar uma melancia na cabeça: todo mundo fica olhando. Eu sou tímido, não gosto dessa exposição”, comenta. 

O interesse do cinegrafista pelos animais se intensificou há cerca de cinco anos. “Eu já tinha curiosidade desde criança, mas não sabia que havia comércio legal desses animais. Fui descobrindo por meio de vídeos, no YouTube. Fiquei um ano estudando até que decidi comprar a primeira”, lembra, citando que conheceu o réptil que hoje está com 4 anos em uma feira de pets. Foi amor à primeira vista, garante. 

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Ao adotar a jiboia, Betran enfrentou resistência. “Quando comecei a estudar e pensar em comprar uma, eu estava casado com uma mulher vegana. Ela não gostava da ideia. Depois que nos separamos, decidi que era a hora”, cita. “De início, minha mãe ficou receosa. Mas logo passou. Hoje, ela vem aqui em casa e interage com elas”, observa ele, que é tutor de duas serpentes. Além delas, que são criadas em terrários preparados para garantir conforto aos animais, o cinegrafista cuida de uma labradora, dois gatos e uma coelha. Com a casa cheia, diz ter encontrado na bicharada conforto para enfrentar o necessário isolamento social em função da pandemia da Covid-19. 

Facilidade no cuidado é atrativo da espécie

A facilidade no cuidado com as serpentes é algo que ajuda a entender o crescente interesse pela espécie. “Acredito que a simplicidade de criação é um atrativo. Com a virtualização das relações, o que ficou mais acentuado agora, com a pandemia, noto que as pessoas têm buscado ter pets em casa – até para canalizar nossas interações afetivas. Mas, muitas vezes, é difícil conciliar o tempo disponível com as demandas desses animais. Sem dúvida, neste sentido, os hábitos das cobras são mais compatíveis com a rotina contemporânea”, argumenta o biólogo Tiago Lima, 39, um dos sócios do criatório Jiboias Brasil, situado em Betim, na região metropolitana de BH. 

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A criação de cobras tem suas especificidades. Na hora de buscar uma clínica veterinária, por exemplo, é importante saber se o local está preparado para atender esses animais. “Nós listamos em nosso site profissionais especializados”, informa Lima. Ele lembra ser fundamental um terrário bem-estruturado, com sombra e água disponível. “Hoje, de 70% a 80% dos problemas com répteis estão relacionados a recintos inadequados”, expõe. Cumpridos tais critérios, a manutenção é simples, garante o criador. 

Hoje, felizmente, Lima percebe que o preconceito contra as serpentes – vistas como animais indesejados – tem dado sinais, mesmo tímidos, de arrefecimento. “Faço palestras desde 1997 com orientações e tentando desmistificar as crenças sobre esses bichos. Defendo que eles podem ser animais de estimação. As redes sociais também ajudam muito e dão visibilidade. Observo que a aceitação é muito melhor atualmente, sinal de uma mudança de cultura mesmo”, argumenta, lembrando que a criação de répteis é comum em outros países. 

Criação legal é forma de coibir o tráfico de animais, defende criador 

Enquanto alguns grupos defendem que serpentes e outras espécies não convencionais, exóticas – quando não pertencem à nossa fauna – ou silvestres – quando pertencem –, não deveriam ser criadas em ambiente doméstico ou em cativeiro, Tiago Lima sustenta que a criação legal tem se mostrado um mecanismo eficiente para coibir o tráfico de animais. “A proibição não estanca a demanda por pets, algo que envolve afeto e emoção. Se não houver alternativa, as pessoas vão comprar de maneira ilegal”, pontua. 

“É importante destacar que possuir uma cobra ilegalmente pode trazer muitos aborrecimentos. A multa, por exemplo, pode chegar a cerca de R$ 5.000. Se a compra é feita legalmente, o custo cai pela metade: temos espécies que vão custar R$ 2.500”, sinaliza, lembrando que, por se tratar de um animal silvestre, o consumidor deve estar atento e precisa verificar se o criatório possui autorização para comercializar os animais. 

Vale destacar que um dos critérios para a venda é que o bicho não seja retirado da natureza. “Só se comercializam animais que já nascem em cativeiro e, por isso, terão qualidade de vida no ambiente doméstico. Quando são capturados, eles não vão se adaptar ao novo ambiente”, avalia. Além disso, Lima observa que são fartos os relatos de maus-tratos no mercado ilegal de animais. “O que se sabe é que as pessoas não se preocupam com bem-estar e segurança. Como se trata de um crime, esses animais não vão ser transportados da maneira correta, por exemplo, ficando expostos a condições degradantes”, critica.

Neste ano, mineiros têm entregue mais animais postos em cativeiro irregularmente

As entregas voluntárias de animais silvestres e exóticos que estavam sob tutela indevida em Minas Gerais aumentaram 71% entre janeiro e julho de 2020. Neste período, foram entregues 575 bichos. Em 2019, considerando o mesmo período, foram 336. Os dados são de um levantamento do Estadual de Florestas (IEF), órgão é responsável pela gestão da fauna em cativeiro e por garantir, em parceria com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a reabilitação desses animais no Estado. 

Papagaios, araras, maritacas, periquitos e jabutis estão entre as espécies mais frequentemente entregues. O órgão cita que a repercussão nacional do caso da naja, que era criada por Pedro Krambeck, 22, um suposto traficante de animais,  pode ter influenciado para o aumento dessas entregas voluntárias. Em julho, quando o estudante de biologia foi atacado pela serpente e precisou ser internado em um hospital para se recuperar, o IEF recebeu 34 animais. Em Minas, as entregas podem ser feita nos Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Belo Horizonte, Juiz de Fora e Montes Claros e no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras) de Patos de Minas.

Denúncias sobre animais mantidos irregularmente em cativeiro podem ser feitas por meio da linha verde do Ibama, que atende pelo número 0800 61 8080, pelo Disque Denúncia 181. A Polícia Militar de Meio Ambiente também pode ser acionada pelo telefone (31) 2123-1600 e (31) 2123-1635.

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