
No centro de Sete Lagoas, diante da Praça Tiradentes, um conjunto de janelas chama a atenção de quem passa. A fachada do antigo casarão contrasta com a paisagem urbana que se modificou ao redor ao longo de mais de dois séculos. Por trás das paredes, porém, está uma parte da própria história do município.
Conhecido atualmente como Centro Cultural Nhô-Quim Drummond, o imóvel é um dos bens arquitetônicos tombados de Sete Lagoas. A construção está localizada no número 257 da Praça Tiradentes e integra, ao lado da Catedral de Santo Antônio e do Museu Histórico Municipal, um dos principais conjuntos históricos do centro da cidade.
Centro Cultural Nhô-Quin Drummond, o Casarão, no Centro Histórico de Sete Lagoas (Foto Alan Junio)
A história do prédio remonta ao final do século XVIII. Registros reunidos por pesquisadores e instituições de patrimônio apontam 1795 como o ano de construção do imóvel, atribuído ao padre Antônio Salustiano Moreira. Posteriormente, por volta de 1890, o prédio passou para os Chassim-Drummond.
Um prédio que acompanhou a transformação da cidade
A Praça Tiradentes, onde o Casarão está situado, era anteriormente conhecida como Praça do Comércio. O local fazia parte de uma área central do antigo núcleo urbano de Sete Lagoas, quando a cidade ainda estava distante da configuração que possui atualmente.
O imóvel também passou por diferentes usos. Segundo registros históricos, a parte inferior chegou a abrigar atividades públicas. Na década de 1960, todo o prédio passou a funcionar como escola. No final dos anos 1970, entretanto, o casarão estava abandonado.
O abandono colocou em risco uma construção que já fazia parte da paisagem e da memória da cidade. A preservação não ocorreu apenas por iniciativa institucional. Houve mobilização de artistas, intelectuais, estudantes e moradores em defesa do imóvel.
O movimento "Casarão Te Quero"
Em junho de 1986, o imóvel foi tombado pelo município por meio do Decreto nº 1.333. O tombamento representou uma etapa importante para garantir a preservação da construção.
Naquele período, surgiu também o movimento popular "Casarão Te Quero", que reuniu setores da sociedade interessados na recuperação do prédio. O movimento é apontado por registros históricos locais como uma das mobilizações comunitárias que contribuíram para a restauração do imóvel.

A recuperação ocorreu em 1988.
Foi uma mudança decisiva na trajetória do prédio. De construção ameaçada pelo abandono, o Casarão passou a ser preparado para uma nova função: abrigar atividades relacionadas à cultura e à memória de Sete Lagoas.
De Solar dos Chassim-Drummond a centro cultural
Em 1991, durante as comemorações do centenário do historiador e folclorista Nhô-Quim Drummond, o imóvel recebeu oficialmente o nome de Centro Cultural Nhô-Quim Drummond. A proposta era transformar o espaço em referência para o artesanato, o folclore e outras manifestações culturais da cidade.
A mudança de função também modificou a relação da população com o edifício.
O que havia sido residência, espaço de atividades públicas e escola passou a receber exposições, oficinas, apresentações artísticas, manifestações do folclore e atividades ligadas à cultura popular.
O Casarão tornou-se, assim, mais do que uma construção preservada. Passou a funcionar como espaço de utilização cultural.
As janelas que contam uma história
Um dos elementos mais marcantes do imóvel é justamente sua fachada.
O grande número de janelas é apontado por registros históricos como uma característica que demonstra a condição social diferenciada da construção em sua época. A dimensão e a disposição das aberturas conferem ao prédio uma presença arquitetônica incomum no centro da cidade.
A arquitetura, portanto, não é apenas um detalhe estético.
Ela ajuda a contar como era organizada a sociedade que ocupava aquele espaço e como determinadas edificações representavam poder, posição social e importância dentro do núcleo urbano.
É essa dimensão que transforma o Casarão em documento histórico construído.
Tiradentes: história e tradição se encontram
Existe uma história recorrente associada ao prédio: a de que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, teria dormido no Casarão durante sua passagem por Sete Lagoas.
A tradição faz parte do imaginário local, mas a documentação histórica exige cautela.
O Plano Municipal de Cultura registra que Tiradentes esteve ligado à região e que o antigo Quartel Geral das Sete Lagoas ficava na área da atual Praça Tiradentes, próximo ao chamado Solar dos Drummond. Outras fontes de patrimônio, entretanto, observam que a tradição de que ele teria dormido especificamente no Casarão não está comprovada.
A distinção é importante.
Patrimônio histórico não é formado somente por aquilo que pode ser comprovado documentalmente. A memória oral, as narrativas transmitidas entre gerações e o imaginário coletivo também fazem parte da relação de uma comunidade com determinado lugar. Mas história documentada e tradição popular não devem ser apresentadas como se fossem a mesma coisa.
No caso do Casarão, essa diferença torna a história ainda mais interessante.
Zacarias e a memória do humor
Se o passado colonial e imperial está inscrito nas paredes do prédio, uma parte mais recente da memória de Sete Lagoas aparece nos fundos do terreno.
Ali está o Anfiteatro Mauro Faccio Gonçalves, homenagem ao artista setelagoano conhecido nacionalmente como Zacarias, integrante do grupo Os Trapalhões. O espaço passou a incorporar a memória do humorista e atividades culturais.
O anfiteatro criou uma espécie de ponte entre diferentes tempos.
De um lado, o casarão setecentista, associado à formação histórica da cidade. Do outro, a memória de um artista que levou o nome de Sete Lagoas para o cenário nacional.
O conjunto passou a reunir patrimônio arquitetônico, memória artística e manifestações culturais contemporâneas.
O Casarão e a cultura popular
Ao longo das últimas décadas, o espaço também foi utilizado para manifestações da cultura popular, incluindo atividades relacionadas ao folclore, ao artesanato e ao congado.
Registros históricos sobre o Centro Cultural apontam a presença de referências às guardas de congado de Sete Lagoas e de atividades voltadas à preservação dessas manifestações.
Essa característica ajuda a explicar a importância do Casarão para além de sua arquitetura.
Um patrimônio histórico pode permanecer fechado e cumprir apenas uma função de preservação física. No caso do Casarão, a proposta construída ao longo das décadas foi diferente: fazer do edifício um lugar onde a memória pudesse continuar sendo produzida.
Novas obras, a mesma preocupação
A conservação de um imóvel histórico não termina com uma restauração.
Em 2023, o Centro Cultural Nhô-Quim Drummond passou por uma nova intervenção, com obras que envolveram cobertura, janelas, portas, telhado, banheiros e pintura interna, externa e do anfiteatro. O processo contou com análise de especialistas em restauração e aprovação do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha).
Em 2024, outra intervenção foi anunciada na Casa da Cultura, e parte dos servidores da área cultural passou a utilizar temporariamente o Casarão durante o período das obras.
Esses episódios mostram um aspecto frequentemente esquecido quando se fala em patrimônio: preservar um edifício histórico significa mantê-lo em condições de uso, segurança e funcionamento.
Um patrimônio que ainda está vivo
Atualmente, o Casarão continua sendo utilizado para atividades culturais. Registros turísticos do Estado indicam a realização de oficinas, aulas e outras ações ligadas às artes, além de visitação gratuita.
Em 2025, por exemplo, o espaço integrou a programação de eventos culturais realizados em Sete Lagoas. Em junho daquele ano, o Centro Cultural também recebeu uma mostra da Diocese de Sete Lagoas relacionada ao seu Jubileu de Platina.
Em 2026, o próprio Casarão voltou a ser objeto de reportagem sobre sua história e sua função cultural na cidade.
A sucessão de atividades ajuda a compreender a particularidade do imóvel.
O Casarão não é apenas uma lembrança do passado. Ele continua sendo utilizado no presente.
Entre a memória e o futuro
Quase três séculos depois de sua construção, o prédio continua diante da Praça Tiradentes.
Ao redor dele, Sete Lagoas mudou. Ruas foram abertas, casas desapareceram, novos edifícios surgiram, o trânsito tomou conta do centro e a cidade se expandiu muito além do antigo núcleo urbano.
O Casarão permaneceu.
Sua importância, entretanto, não está somente na idade. Está na quantidade de histórias que atravessaram suas paredes: a religiosidade do período colonial, as transformações da cidade, os diferentes proprietários, o funcionamento de uma escola, o abandono, a mobilização popular pela preservação, o tombamento, a restauração e a transformação do imóvel em espaço cultural.
Talvez seja essa a principal razão para o Casarão continuar ocupando um lugar particular na memória de Sete Lagoas.
Ele não é apenas um prédio antigo.
É um documento de pedra, madeira, adobe e memória — um lugar onde diferentes épocas da cidade continuam encontrando-se.
[16:37, 16/09/2026] Caio Pacheco: Casarão, símbolo
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