
Onze dias após a Sigma Lithium anunciar a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o governo de Minas Gerais, a CEO e cofundadora da empresa, Ana Cristina Cabral, doou R$ 100 mil para a campanha do governador e candidato à reeleição, Mateus Simões (PSD).
O TAC foi assinado em 21 de agosto de 2026 e, segundo a própria mineradora, permitiu a retomada integral das atividades de mineração e industriais do complexo Grota do Cirilo, no Vale do Jequitinhonha. A doação de Ana Cristina Cabral foi registrada em 1º de setembro, conforme os dados de prestação de contas eleitoral divulgados.
A Sigma havia enfrentado uma suspensão parcial das operações após fiscalização ambiental estadual e recebido multas relacionadas a irregularidades apontadas no complexo localizado nos municípios de Araçuaí e Itinga.
Entre as ocorrências citadas nos autos estavam a captação de água em nascente sem autorização, intervenções em cursos d'água e armazenamento de materiais com potencial risco de contaminação em desacordo com normas técnicas.
As fiscalizações realizadas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) resultaram em multas de aproximadamente R$ 2,7 milhões, segundo as informações divulgadas sobre o caso.
A Sigma contestou as principais acusações e iniciou negociações com o governo estadual para a assinatura do TAC. O acordo estabeleceu medidas relacionadas às adequações ambientais e possibilitou a retomada das atividades da mineradora. A própria empresa informou, na ocasião, que havia firmado o termo com o Estado e que suas operações estavam novamente em funcionamento.
Após a divulgação da contribuição eleitoral, Ana Cristina Cabral afirmou que o dinheiro saiu de seus recursos pessoais e que a doação foi realizada de forma declarada.
A executiva disse que o repasse foi feito em seu próprio CPF e negou que tivesse relação com interesses pessoais ligados à Sigma.
A assessoria da campanha de Mateus Simões foi procurada, mas não apresentou manifestação sobre a doação.
O governo de Minas também afastou qualquer relação entre o TAC e a contribuição eleitoral. Segundo a Feam, as defesas administrativas apresentadas pela empresa em relação aos autos de infração seguem o fluxo regular de análise e são avaliadas de acordo com a ordem cronológica de recebimento, ressalvadas as situações de prioridade previstas em lei ou determinadas por decisão administrativa ou judicial.
A sequência temporal entre os dois fatos — a assinatura do TAC e a posterior doação — é documentada, mas isso, por si só, não estabelece uma relação causal entre o acordo e a contribuição eleitoral.
Poucos dias após a doação, a situação da mineradora voltou a ser analisada pela Justiça Federal.
Em 4 de setembro, uma decisão determinou a suspensão das atividades do complexo Grota do Cirilo e dos efeitos das licenças ambientais relacionadas ao empreendimento. A medida foi tomada em uma ação apresentada pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais, que questiona a distância entre o empreendimento e o território da Comunidade Quilombola do Baú.
A Justiça determinou a realização de uma perícia cartográfica por geoprocessamento para verificar a distância entre as áreas. Também foi estabelecida multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento da ordem.
A Sigma contestou a decisão e afirmou que pretende recorrer. A empresa também declarou que não teria sido pessoalmente intimada e questionou os fundamentos utilizados na determinação judicial.
A continuidade das operações da Sigma, apesar da decisão judicial, também motivou uma notícia-crime apresentada ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal (PF).
A representação foi assinada pelas deputadas federais Célia Xakriabá e Duda Salabert, pela Associação Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular, pela Federação das Comunidades Quilombolas de Minas Gerais — N'Golo — e pelo Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O documento solicita a apuração dos fatos, realização de diligências no complexo minerário, preservação de provas e identificação de eventuais responsáveis pela continuidade das atividades.
Moradores de comunidades próximas ao empreendimento também relatam impactos relacionados à atividade minerária.
Nídia Ramalho, de 53 anos, moradora da comunidade rural de Piauí Poço Dantas, afirmou que a operação alterou a rotina das famílias da região, com relatos de aumento de barulho e poeira e mudanças nas condições de um córrego utilizado anteriormente pelos moradores.
A deputada Célia Xakriabá também declarou que a continuidade das atividades aumenta a pressão sobre as comunidades próximas ao empreendimento e defendeu medidas de proteção às lideranças locais.
O caso envolve questões ambientais, judiciais e eleitorais. A doação de R$ 100 mil foi registrada como contribuição da CEO da Sigma Lithium para a campanha de Mateus Simões, enquanto a executiva e o governo de Minas negam qualquer relação entre a contribuição e o TAC firmado com a mineradora.
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