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UPA desativada vira ‘depósito de corpos’ e moradores se preocupam

03/04/2021 10h53
Por: Redação Fonte: Mega Cidade com BHAZ
Elisangela Santos/Arquivo Pessoal
Elisangela Santos/Arquivo Pessoal

Moradores de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, foram surpreendidos por uma cena de guerra no local onde funcionava uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do município. A partir desta sexta-feira (2), o estacionamento da antiga UPA JK, no bairro Eldorado, passou a ser utilizado como um “depósito” para armazenar corpos de vítimas da Covid-19. O centro de saúde, segundo os moradores, já estava desativado há aproximadamente dez anos e o estacionamento era cedido a uma igreja. Agora, a mudança veio com muitas preocupações para quem vive por lá.

“Hoje pela manhã, por volta das 7h30, fomos deparados com guardas municipais na frente da nossa casa, com caminhão frigorífico, carros de várias funerárias e os guardas. Agora o espaço onde era esse estacionamento está servindo para guardar os corpos da Covid”, relata Elisangela Santos, que mora em frente à UPA. Segundo ela, os moradores foram surpreendidos com a movimentação, que se estendeu por toda a manhã, e chegaram a questionar os agentes que estavam no local.

“Nós perguntamos [aos guardas] o que estava acontecendo e foi relatado que o estacionamento estava servindo para deixar os corpos, para tirar dos hospitais por não ter lugar de guardar”, afirma. A moradora conta ainda que a situação, apesar de nova, já enche a vizinhança de medo e preocupação. É que eles temem que a nova função do local contribua para o aumento da exposição dos moradores à Covid-19, já que a região é residencial.

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‘Mausoléu’

Segundo Elisangela, a UPA já estava desativada há décadas e somente o estacionamento servia para atender a igreja. Com o tempo, o espaço foi depredado e acabou ficando abandonado. “Ela ficou fechada e foi servindo para os andarilhos tirarem tudo que tinha nela. Era como se fosse um mausoléu, ela ficou um lugar assombrado”, conta.

A moradora ainda lamenta que as vítimas do vírus, mesmo depois de tanto sofrimento, ainda precisem ser encaminhadas a um local nessas condições. “Até mesmo para as pessoas que estão mortas eu vejo como uma falta de respeito, uma falta de consideração com essa pessoa”, pontua. Para Elisangela, que ecoa as opiniões de outros vizinhos, a nova finalidade do estacionamento do antigo centro de saúde é uma falta de respeito tanto com os moradores como com as vítimas.

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“Diante da situação que estamos vivendo, é muito triste presenciar isso todo dia e nós não sabemos até que ponto nós estamos em risco em relação à doença. Será que não aumenta o nosso risco?”, questiona.

Pegos de surpresa

Além disso, outro ponto que deixou os moradores insatisfeitos foi a falta de contato da Prefeitura de Contagem. Segundo Elisangela, ninguém foi avisado da movimentação que passaria a fazer parte da rotina da região a partir de hoje. “Eu acho que se as coisas fossem conversadas, talvez a população encararia de outra forma, mas não foi”, argumenta.

Ela afirma que a situação pegou a todos de surpresa logo no início da manhã. “Foi surpresa. Pela manhã, ao abrir o portão, nós já nos deparamos com essa situação, com a Guarda Municipal colocando as faixas para isolar, o caminhão frigorífico e os carros de funerárias”, relata. O que os moradores esperam agora é a garantia de que eles não serão ainda mais expostos ao vírus e que as vítimas da doença sejam tratadas com dignidade.

O que diz a prefeitura?

Procurada pelo BHAZ, a Prefeitura de Contagem confirmou que a estrutura dos necrotérios no município está sobrecarregada em função do agravamento do cenário da pandemia. “O número de óbitos ocorridos nos últimos dias aumentou o prazo para a liberação das certidões pelos cartórios. O que leva a uma espera maior por parte das famílias pelo sepultamento de seus entes”, disse, em nota (leia na íntegra abaixo).

Por isso, a prefeitura esclareceu ainda que contratou uma empresa especializada para fazer a remoção e o acondicionamento dos corpos, numa tentativa de evitar que eles fiquem por muito tempo nas unidades de saúde da cidade. “Essa ação é segura e não representa nenhum risco de contaminação, nem para a população e nem ambiental”, tranquilizou.

Ainda segundo a prefeitura, a estrutura montada na antiga UPA JK “é apenas de acondicionamento e está funcionando de forma emergencial e provisória”. “A Prefeitura segue monitorando a situação e estará pronta para determinar novas medidas caso elas sejam necessárias”, concluiu.

Nota da prefeitura na íntegra:

A Prefeitura de Contagem esclarece:

Em função do agravamento da pandemia e do número crescente de mortes, a estrutura de necrotérios municipais se encontra sobrecarregada.

O número de óbitos ocorridos nos últimos dias aumentou o prazo para a liberação das certidões pelos cartórios. O que leva a uma espera maior por parte das famílias pelo sepultamento de seus entes.

Diante dessa situação a Prefeitura criou um Plano de Contingência e tomou as seguintes providências:

  • Contratou uma empresa especializada para fazer a remoção e acondicionamento de corpos, evitando que eles fiquem aguardando por tempo indeterminado, nas unidades de atendimento da rede pública de saúde.
  • O transporte dos corpos é realizado por veículos apropriados e com segurança sanitária. As famílias são acompanhadas por equipe médica e uma assistente social.
  • Essa ação é segura e não representa nenhum risco de contaminação, nem para a população e nem ambiental. O local é apenas de acondicionamento, e está funcionando de forma emergencial e provisória na antiga UPA no Bairro JK. A Prefeitura prepara um local definitivo, em melhores condições para instalar esse serviço.
  • Os cemitérios da cidade têm passado por reestruturação, para que possam promover os sepultamentos com a dignidade e o respeito que vítimas e familiares merecem. Estão sendo contratados pedreiros, empresa de manutenção e demais serviços para evitar o estrangulamento do sistema funerário da cidade.

A Prefeitura segue monitorando a situação e estará pronta para determinar novas medidas caso elas sejam necessárias.

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