Na mesma data em que o calor batia o recorde do ano, com temperaturas acima de 35ºC na última quarta-feira (15), Dom Lucas Macieira, 64, via com desalento a falta de água que já durava dias. Morador há mais de oito anos do bairro Dumaville, em Esmeraldas, na região metropolitana de Belo Horizonte, o sacerdote disse que, mesmo quando o recurso chega via caminhões-pipa, não é potável. "A água tem uma cor amarronzada e só dá para limpar a casa, tomar um banho. Mesmo no chuveiro, ainda corremos o risco de pegar uma doença, porque a pele fica bem complicada e já tive hematomas. Mas não tem outro jeito", contou.
Sem alternativa, os moradores da região precisam comprar água mineral para beber e cozinhar. "O que chega da Copasa dá muita dor de barriga", relatou. Na mesma rua, o comerciante Jonas Vitor da Paixão, 39, está há quase cinco dias sem abastecimento. Muitas vezes, ele se arrisca e ferve a água que chega para cozinhar. "É totalmente salobra, vem até com folhas. É um absurdo e podemos pegar doenças, se intoxicar", relatou. E conforme um levantamento inédito da plataforma de inteligência artificial Neurotech, Minas Gerais é o terceiro estado do país que mais gasta com internações causadas pela precariedade do saneamento básico – à frente de Maranhão e Pará.
Os dados foram retirados do DataSUS, sistema do Ministério da Saúde que contabiliza as doenças. Só em 2020, que foi o último levantamento realizado, foram quase R$ 13 milhões destinados aos hospitais para tratamento dessas enfermidades – entre elas, estão leptospirose, hepatite A, esquistossomose, teníase, arboviroses e infecções intestinais. Desde 2010, o estado registra, em média, 24.000 internações e pelo menos 275 óbitos por ano – no último período, foram 330 mortes. A Secretaria de Estado de Saúde foi questionada sobre os índices deste ano, porém só informou o número de casos de esquistossomose. Até o dia 14 de setembro, foram 14.274 casos atendidos e quase 10.000 exames realizados, sendo 211 positivos para a doença.
Para o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, os números são elevados não só em Minas Gerais, mas também em todo o país. "Temos mais de 270.000 internações por ano e estamos falando de R$ 110 milhões de gasto para doenças que não são de alta complexidade, mas que disputam leitos com outras", pontuou. Além disso, o especialista lembrou que a intensa transmissão da Covid-19 no país e o elevado número de mortes – quase 600.000 – também é consequência da precariedade do saneamento. "A pandemia pegou o Brasil em uma situação pior que a de muitos outros países justamente por conta da nossa condição sanitária", enfatizou.
Conforme o Painel Saneamento, que é mantido pela entidade a partir dos números do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) do governo federal, só em Minas Gerais há quase quatro milhões de pessoas sem acesso à água potável, o que corresponde a 17,9% da população. Em relação à coleta de esgoto, o indicador é ainda pior: são 5,6 milhões de habitantes que vivem em regiões que não possuem o serviço ou 26,9% do total. Além disso, só 42% dos dejetos são tratados pelas companhias de saneamento no estado e um volume de 508 piscinas olímpicas são despejadas todos os dias nos mananciais – Copasa e Copanor são responsáveis por 640 municípios, enquanto 207 contam com empresas municipais de saneamento e seis possuem prestadores da iniciativa privada.
"É uma infraestrutura essencial para a nossa vida. Esgoto coletado e tratado é o mais elementar das necessidades que temos em uma cidade, mas infelizmente no Brasil isso ficou sempre para depois, sendo postergado, e criou um déficit muito grande", acrescentou Édison Carlos. O presidente do Trata Brasil lembrou ainda que Minas é um estado com grandes diversidades, o que torna o desafio da universalização ainda maior. "Na metade para baixo, temos uma parte muito desenvolvida na porção centro-sul e a parte Norte do estado uma situação muito diferente", disse.
Mulheres e jovens são os mais afetados pela falta de saneamento
O estudo da Neurotech revelou ainda que os adultos com idades entre 18 e 22 anos e as mulheres são os mais afetados pela falta de saneamento básico. O cientista de dados da empresa, Cláudio Alves Monteiro, disse que o acesso ao serviço está diretamente relacionado à saúde das pessoas. "Para além do mal causado diretamente pela enfermidade, também tem a questão que a população necessita estar saudável para poder estudar e trabalhar. Então isso acaba também impactando diretamente a renda e a qualidade de vida das pessoas", declarou.
Conforme o pesquisador, no ano passado, houve um número menor de internações hospitalares por questões sanitárias, o que pode ser reflexo da Covid-19 – foram 320.000 casos, contra 490.000 em 2019. "Isso também demostra um pouco da influência da pandemia, já que muitas pessoas tinham medo de ir ao hospital e acabou tendo essa baixa. Porém, esperamos que em 2021 e 2022 o número volte a crescer", frisou. O especialista pontuou ainda que o estudo mostra uma sazonalidade com picos de registros, entre maio e agosto. "Com isso, podemos promover um modelo de inteligência artificial que é capaz de prever a quantidade de casos mensalmente e os hospitais se planejarem melhor" disse.
Além disso, Cláudio Alves explicou que as informações levantadas podem ajudar o poder público a pensar alternativas para mitigar esse problema. Porém, a solução definitiva depende da universalização do saneamento. "Pode ser criado um programa de conscientização para o público jovem com questões sobre a higiene, evitar contato com água contaminada e lembrar que muitos mananciais recebem esgoto. Além disso, podemos traçar quais as regiões, até mesmo dentro de uma cidade, que necessitam da expansão do serviço", finalizou.

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