
A Cemig demitiu Rubens Soalheiro, ex-diretor comercial da Cemig SIM, após suspeitas relacionadas à atuação dele na relação comercial da companhia com empresas ligadas a Felipe Vorcaro, primo e apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Além da demissão, a estatal informou que encerrou os contratos mantidos com as empresas mencionadas nas investigações da Polícia Federal (PF) e determinou a realização de uma auditoria externa independente para avaliar os contratos da área envolvida.
Em nota, a Cemig confirmou a saída de Soalheiro: “O diretor citado (Rubens Soalheiro) foi demitido e, portanto, não integra mais os quadros da Cemig SIM”.
Soalheiro é apontado como responsável por facilitar a relação comercial da Cemig SIM com empresas ligadas ao grupo de Vorcaro. Entre as principais empresas mencionadas está a Green Investimentos, que atua no setor de energia renovável e mantém negócios com a estatal mineira.
Segundo informações relacionadas à investigação da Polícia Federal, ações da Green Investimentos teriam sido utilizadas como forma de pagamento por supostos favores prestados ao grupo de Daniel Vorcaro pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI).
De acordo com os investigadores citados na reportagem, as ações negociadas entre Felipe Vorcaro e o grupo ligado a Ciro Nogueira teriam valor de mercado estimado em R$ 13 milhões. No entanto, o irmão do senador teria adquirido participação na Green Investimentos por R$ 1 milhão.
A diferença, de aproximadamente R$ 12 milhões, foi apontada pela PF como possível forma de “retribuição” a Ciro Nogueira por sua atuação em favor dos interesses do grupo ligado ao Banco Master.
O senador foi investigado pela PF no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades envolvendo o Banco Master.
Diante das suspeitas, a Cemig informou ter adotado medidas para interromper a relação comercial com os grupos citados.
Segundo a estatal, todos os contratos existentes com as empresas mencionadas foram encerrados em maio. A Cemig SIM, portanto, não mantém atualmente contratos vigentes com esses grupos.
A companhia também informou que a atual gestão solicitou uma auditoria externa independente, como medida complementar aos procedimentos de governança e compliance já adotados.
A atuação da diretoria comercial da Cemig SIM nos últimos anos também passou a ser questionada. A área foi comandada por gestores ligados ao grupo político de Marcelo Aro (PP), ex-secretário de Governo de Romeu Zema (Novo).
Iran Barbosa comandou a área em 2024 e posteriormente foi sucedido por Rubens Soalheiro, que antes havia ocupado cargo na direção nacional do PP.
Segundo as informações apresentadas sobre o caso, os dois teriam sido indicados por Aro em um acordo político que reservava ao PP espaço nas indicações para a empresa.
Foi nesse período que empresas ligadas ao grupo de Vorcaro ampliaram sua presença nos negócios de geração distribuída de energia solar vinculados à Cemig SIM.
Conforme informações levantadas pela investigação da Polícia Federal, aproximadamente 60 sociedades relacionadas a usinas fotovoltaicas de geração distribuída teriam relação com empresas administradas por Daiane Aline de Andrade Silveira e Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro.
Estimativas citadas no caso apontam que Daniel Vorcaro e familiares deteriam cerca de 160 MWp em ativos de geração solar, avaliados em aproximadamente R$ 1,2 bilhão.
A Green Investimentos, com cerca de 70 MWp, representaria uma parcela significativa desse conjunto de ativos.
O caso também motivou uma representação do deputado federal Rogério Correia (PT) à Procuradoria-Geral da República (PGR).
O parlamentar pediu a abertura de investigação sobre as relações empresariais envolvendo Daniel Vorcaro, Ciro Nogueira, Marcelo Aro e Rubens Soalheiro, que agora é ex-diretor comercial da Cemig SIM.
A representação foi apresentada após reportagens apontarem conexões societárias entre os envolvidos e negócios no setor de geração de energia fotovoltaica em Minas Gerais.
Correia defende que sejam apuradas possíveis situações de conflito de interesses, favorecimento administrativo, influência política, ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, além de eventual utilização da estrutura da Cemig SIM para beneficiar empresas privadas.
“Estamos diante de suspeitas de uma teia de relações entre empresários, agentes políticos e dirigentes de uma empresa pública. É uma situação extremamente grave e que precisa ser investigada a fundo”, afirmou o deputado.
A demissão de Soalheiro e a auditoria anunciada pela Cemig ocorrem enquanto as suspeitas e as relações empresariais citadas seguem sob análise das autoridades. As investigações ainda precisam esclarecer eventual responsabilidade individual e a existência ou não de irregularidades ou crimes nas operações mencionadas.
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