
O governo federal prepara uma nova versão do programa Desenrola, voltada à renegociação de dívidas de consumidores inadimplentes. O chamado Desenrola 3.0 poderá envolver até R$ 90 bilhões em dívidas até o fim de 2026, valor que supera a soma dos montantes movimentados pelas duas primeiras edições do programa.
A nova fase foi anunciada inicialmente com previsão de até R$ 15 bilhões para a aquisição de dívidas de pessoas físicas e microempreendedores individuais (MEIs). Nesta quarta-feira (21), porém, a área econômica do governo informou que o programa poderá alcançar um volume de até R$ 90 bilhões.
A proposta envolve dívidas de cartão de crédito, crédito pessoal e contas de serviços públicos e lojas, com atrasos entre dois e quatro anos e meio.
Como vai funcionar
A Caixa Econômica Federal poderá adquirir carteiras de dívidas vencidas de instituições financeiras participantes. A regra estabelece um desconto mínimo de 90% na compra dessas carteiras, embora o abatimento possa ser ainda maior.
Isso não significa, necessariamente, que todos os consumidores terão 90% de desconto sobre suas dívidas. O percentual aplicado a cada débito dependerá das condições da renegociação.
O governo espera que a iniciativa permita aos consumidores quitar ou reorganizar débitos antigos com condições mais favoráveis.
Desenrola 1 e 2
A primeira edição do Desenrola renegociou R$ 53,2 bilhões em dívidas de 14,8 milhões de pessoas entre julho de 2023 e maio de 2024. Os descontos chegaram a 85% e 90%.
Já o Desenrola 2.0, realizado entre maio e agosto de 2026, renegociou dívidas cujo valor original somava R$ 28,37 bilhões. Com descontos próximos de 80%, os débitos repactuados e garantidos pelo Fundo de Garantia de Operações (FGO) totalizaram R$ 5,71 bilhões.
Mesmo após essas iniciativas, a inadimplência continua elevada. Segundo dados do Banco Central citados na reportagem, em agosto de 2026, 6,61% dos empréstimos com recursos livres estavam atrasados havia mais de 90 dias, o maior percentual da série histórica iniciada em 2011.
Dados do UBS BB também apontam que o número de brasileiros negativados aumentou em 2,7 milhões entre o fim de 2025 e agosto de 2026, chegando a aproximadamente 84 milhões de pessoas, o equivalente a cerca de 51% da população adulta.
Especialistas veem risco de novo endividamento
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que programas de renegociação podem ajudar consumidores a sair da inadimplência, mas alertam que a medida, sozinha, não resolve as causas do endividamento.
Entre os principais pontos citados estão a necessidade de educação financeira, melhor orientação na contratação de crédito e redução dos juros.
Há também preocupação com o chamado risco moral: consumidores podem passar a adiar pagamentos na expectativa de que novos programas governamentais ofereçam condições especiais para quitar as dívidas posteriormente.
A avaliação é de que a renegociação pode aliviar a situação financeira das famílias no curto prazo, mas precisa ser acompanhada de medidas que evitem a formação de novas dívidas.
Mercado de dívidas
A compra e venda de carteiras de crédito em atraso já é uma prática consolidada entre instituições financeiras. Segundo estimativa da Deloitte citada na reportagem, esse mercado movimenta atualmente entre R$ 50 bilhões e R$ 55 bilhões por ano.
A consultoria estima ainda que existam cerca de R$ 600 bilhões em dívidas fora dos balanços dos bancos.
O governo pretende utilizar o novo programa para ampliar a possibilidade de renegociação e retirar consumidores da inadimplência, mas o resultado dependerá da adesão das instituições financeiras e das condições oferecidas aos devedores.
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