
Alguns medicamentos apresentam cores atraentes, como rosa, verde e azul. Outros têm sabor de laranja, chocolate e framboesa. Tornados atraentes pela indústria farmacêutica, eles facilmente seduzem as crianças que, entre uma brincadeira e outra, podem ingerir uma dessas substâncias e sofrer graves complicações na saúde.
Um levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox), revela que todos os dias 37 crianças e adolescentes, com idades entre 0 e 19 anos, sofrem as consequências da exposição inadequada a medicamentos. Minas Gerais ocupa o quarto lugar no ranking dos Estados com maior incidência de intoxicação medicamentosa. São 4,6 casos por dia no Estado, que é o terceiro com o maior número de mortes – 24 entre 1999 e 2014.
“Em crianças menores de 1 ano, as intoxicações são geralmente acidentais, como erro na administração ou quando os pais confundem substâncias. Quando a criança começa a engatinhar, a subir nos móveis, passa a vasculhar o ambiente e pode ter acesso a medicamentos em casa. Nessa situação, a principal causa da intoxicação é a disponibilidade, a existência de ‘farmacinhas’”, diz o médico toxicólogo Adebal Andrade, coordenador da Unidade de Toxicologia do Hospital João XVIII, em Belo Horizonte.
Segundo a SBP, o índice de casos de intoxicação é maior entre crianças de 1 a 4 anos, grupo seguido por adolescentes (entre 14 e 19 anos). No caso desses jovens, a causa da intoxicação parece ter outra face, que acende o alerta para os cuidados mentais durante esse período da vida. “Especialmente entre jovens, a principal causa é a tentativa de autoextermínio. Isso no serviço de urgência, que, claro, costuma atender casos mais graves”, diz Andrade.
Para o pediatra Edson Ferreira Liberal, segundo vice-presidente da SBP, é preciso que os pais estejam atentos. “Se for um processo repetitivo, pode estar atrelado à autoagressão. E há uma tendência de o adolescente pensar que sabe mais do que sabe e, por isso, acaba administrando doses incorretas”, diz.
A variedade de medicamentos disponíveis no mercado costuma inviabilizar um tratamento universal para a intoxicação. É preciso estar atento a sintomas como sonolência, vômito e convulsões para realizar um diagnóstico rápido. “Se houver suspeita de ingestão, os responsáveis devem coletar todos os medicamentos que podem ter sido ingeridos e ir até uma unidade de urgência para o médico avaliar o melhor tratamento. Se o paciente chegar até o hospital antes que tenha passado duas horas desde a ingestão, é possível contornar a situação com o esvaziamento gástrico”, explica Andrade. Ele diz que o tratamento tardio do envenenamento pode levar a sérias consequências, como perda da função hepática e lesões em órgãos vitais.
O governo discute algumas medidas para garantir a segurança no uso de remédios. Na Câmara dos Deputados, projetos de lei sobre o tema tramitam há anos.
Os textos preveem, por exemplo, a obrigatoriedade do uso de tampas de segurança em embalagens de medicamentos. “A tampa de segurança obriga o paciente a realizar dois movimentos, apertar e girar, para ter acesso ao frasco. Se tivesse essa obrigatoriedade, certamente as intoxicações estariam em níveis mais baixos”, explica o pediatra Edson Ferreira Liberal, segundo vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Em Minas Gerais, segundo a Secretaria de Estado de Saúde, as vigilâncias sanitárias municipais realizam campanhas para combater a propaganda abusiva de medicamentos junto à população.
Por Lara Alves, sob supervisão de Carla Chein - OTempo

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