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ESPECIAL: pesquisas científicas revelam riqueza patrimonial da Gruta Rei do Mato

Circuito das Grutas desponta como fonte de história, memória e modo de viver dos antepassados

06/07/2026 às 17h05
Por: Redação
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Luiz Eduardo Panisset Travassos, professor da PUC Minas, revela riquezas até então desconhecidas da Gruta Rei do Mato (Arquivo pessoal)
Luiz Eduardo Panisset Travassos, professor da PUC Minas, revela riquezas até então desconhecidas da Gruta Rei do Mato (Arquivo pessoal)

ENTREVISTA EXCLUSIVA

Professor Luiz Eduardo Panisset Travassos - PUC Minas

 

“A Grutinha e a Gruta Rei do Mato têm relevância por reunirem registros naturais e culturais em um mesmo contexto paisagístico. Elas não são apenas feições geológicas; também integram uma paisagem de memória, ocupação e uso humano. A presença de pinturas rupestres e outros vestígios arqueológicos reforça seu valor como patrimônio cultural brasileiro”

 

Luiz Eduardo Panisset Travassos é geógrafo formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, instituição onde também concluiu a especialização em Gestão Ambiental de Resíduos Sólidos, o mestrado e o doutorado em Geografia. É ainda doutor em Carstologia pela Universidade de Nova Gorica, na Eslovênia. Desde 2010, atua como professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da PUC Minas, onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado nas áreas de Geografia Física, Geomorfologia Cárstica, Carstologia, Geoconservação, Geopatrimônio, Meio Ambiente e Cultura. Foi coordenador da Seção de História da Espeleologia da Sociedade Brasileira de Espeleologia entre 2007 e 2013. Atualmente, é coordenador do Comitê de Carste para a América do Sul da União Geográfica Internacional e Pesquisador Associado do Karst Research Institute, na Eslovênia. Realizou dois estágios de pós-doutoramento na Eslovênia, um no Instituto de Pesquisas do Carste e outro na Academia Eslovena de Ciências e Artes. Sua trajetória acadêmica reúne ampla produção científica, experiência em orientação e atuação internacional, especialmente nos estudos sobre carste, cavernas, geopatrimônio, geoconservação e relações entre natureza, território e cultura.

 

 

Qual é a importância científica da descoberta de 48 novas cavidades naturais na região da Gruta Rei do Mato?

Prof. Luiz Travassos - A descoberta de 48 novas cavidades amplia de forma muito significativa o conhecimento sobre o sistema cárstico da região da Gruta Rei do Mato. Isso mostra que a área é muito mais complexa e rica do que se conhecia anteriormente, reunindo cavernas, abrigos, condutos, feições de dissolução, depósitos sedimentares, ambientes úmidos e registros biológicos e arqueológicos. Cientificamente, esse levantamento permite compreender melhor a evolução geomorfológica do carste de Sete Lagoas, a circulação da água subterrânea e a distribuição dos ambientes subterrâneos.

Como esse levantamento pode contribuir para a preservação ambiental e arqueológica em Sete Lagoas e no Circuito das Grutas?

Prof. Luiz Travassos - O levantamento fornece uma base técnica para orientar a gestão e a proteção das cavidades. Ao identificar onde estão as cavernas, quais são mais sensíveis e quais apresentam valor arqueológico, biológico ou geológico, torna-se possível definir áreas prioritárias de conservação, controlar acessos, orientar o turismo, evitar impactos e planejar ações de monitoramento. Isso fortalece não apenas a proteção do Monumento Natural Estadual Gruta Rei do Mato, mas também a valorização do Circuito das Grutas como território de patrimônio natural e cultural.

O estudo identificou espécies com potencial de serem inéditas para a ciência. Qual o impacto dessa descoberta para a biologia subterrânea no Brasil?

Prof. Luiz Travassos - A identificação de espécies potencialmente novas é muito relevante porque os ambientes subterrâneos ainda são pouco conhecidos no Brasil. Cada nova ocorrência pode revelar formas de vida altamente adaptadas à escuridão, à escassez de alimento e à estabilidade ambiental das cavernas. Isso contribui para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade subterrânea brasileira, reforça a importância de Minas Gerais para a bioespeleologia e mostra que cavernas aparentemente pequenas ou pouco conhecidas podem abrigar organismos de grande valor científico.

Como funciona o processo de confirmação de uma nova espécie descoberta em ambientes subterrâneos?

Prof. Luiz Travassos - A confirmação exige um processo cuidadoso. Primeiro, os organismos são coletados com autorização e métodos adequados. Depois, são analisados por especialistas, que comparam suas características morfológicas com espécies já descritas. Em muitos casos, também são feitos estudos genéticos. Se for comprovado que o organismo não corresponde a nenhuma espécie conhecida, os pesquisadores elaboram uma descrição formal, escolhem um nome científico e publicam o resultado em revista especializada. Só após essa publicação a espécie passa a ser oficialmente reconhecida pela ciência.

O que significa uma espécie ser considerada exclusiva de ambientes subterrâneos e qual a importância ecológica desses organismos?

Prof. Luiz Travassos - Uma espécie exclusiva de ambientes subterrâneos é aquela que depende das cavernas ou do meio subterrâneo para viver. Muitas dessas espécies apresentam especializações específicas, como redução dos olhos, perda de pigmentação, alongamento de antenas ou pernas e metabolismo mais lento. Elas são importantes porque ajudam a manter o equilíbrio ecológico das cavernas, participando da decomposição de matéria orgânica, da ciclagem de nutrientes e das cadeias alimentares subterrâneas. Além disso, funcionam como indicadores da qualidade ambiental desses ecossistemas.

Quais desafios existem na conservação de ecossistemas subterrâneos e cavernas em Minas Gerais?

Prof. Luiz Travassos - Os principais desafios envolvem a pressão urbana, a mineração, a expansão de infraestrutura, o turismo desordenado, a contaminação da água subterrânea, o vandalismo, a retirada de sedimentos ou espeleotemas e a falta de conhecimento sobre muitas cavidades. Em Minas Gerais, onde há grande ocorrência de rochas carbonáticas e forte uso econômico do território, é essencial integrar pesquisa científica, gestão ambiental, fiscalização e educação patrimonial.

As pinturas rupestres encontradas podem ajudar a compreender como viviam os povos antigos da região? De que maneira?

Prof. Luiz Travassos - Sim. As pinturas rupestres são registros materiais da presença humana antiga na paisagem. Elas podem indicar formas de representação simbólica, uso de abrigos, relação com animais, rotas de circulação, práticas culturais e modos de ocupação do território. Quando analisadas junto com vestígios cerâmicos, instrumentos, sedimentos e localização dos sítios, ajudam a reconstruir aspectos da vida, da mobilidade e da organização dos grupos humanos que habitaram ou utilizaram a região.

Qual a relevância arqueológica da Grutinha e da Gruta Rei do Mato para o patrimônio cultural brasileiro?

Prof. Luiz Travassos - A Grutinha e a Gruta Rei do Mato têm relevância por reunirem registros naturais e culturais em um mesmo contexto paisagístico. Elas não são apenas feições geológicas; também integram uma paisagem de memória, ocupação e uso humano. A presença de pinturas rupestres e outros vestígios arqueológicos reforça seu valor como patrimônio cultural brasileiro, pois ajuda a compreender a longa relação entre os povos antigos e os ambientes cársticos de Minas Gerais.

Como a presença de pinturas rupestres e vestígios cerâmicos pode fortalecer o turismo cultural e científico em Sete Lagoas?

Prof. Luiz Travassos - Esses elementos ampliam o significado turístico da região. O visitante deixa de conhecer apenas uma caverna bonita e passa a compreender um território com história, ciência, cultura e memória. Isso pode fortalecer roteiros de turismo cultural, educação patrimonial, geoturismo e divulgação científica, desde que a visitação seja planejada com cuidado. A presença desses vestígios também pode atrair pesquisadores, estudantes e instituições interessadas em arqueologia, geografia, biologia, geologia e conservação.

Quais cuidados precisam ser adotados para equilibrar preservação ambiental e visitação turística em áreas como a Gruta Rei do Mato?

Prof. Luiz Travassos - É necessário controlar o acesso às áreas sensíveis, manter trilhas definidas, evitar toque em pinturas rupestres, espeleotemas e sedimentos, instalar sinalização adequada, capacitar guias, limitar grupos quando necessário e realizar monitoramento contínuo. Também é importante separar áreas de visitação pública de áreas destinadas apenas à pesquisa ou conservação. O turismo deve ser instrumento de valorização e educação, não de degradação.

Esse tipo de estudo pode abrir portas para novas pesquisas acadêmicas e investimentos na região? Como?

Prof. Luiz Travassos - Sim. Um inventário como esse cria uma base científica para novos projetos em geomorfologia, arqueologia, biologia subterrânea, hidrogeologia, geoconservação, turismo sustentável e educação ambiental. Também pode apoiar a captação de recursos, convênios com universidades, editais de pesquisa, projetos de monitoramento e ações de valorização do Circuito das Grutas. Quanto mais bem documentado é o patrimônio, maiores são as possibilidades de investimento responsável.

Qual a importância da participação de universidades e centros de pesquisa em projetos de preservação como este?

Prof. Luiz Travassos - Universidades e centros de pesquisa garantem rigor técnico, formação de estudantes, produção de conhecimento e continuidade das investigações. Eles ajudam a transformar dados de campo em diagnósticos, mapas, relatórios, publicações, materiais educativos e propostas de gestão. Além disso, aproximam ciência, poder público e sociedade, tornando a preservação mais fundamentada e eficiente.

A descoberta dessas riquezas naturais e arqueológicas pode mudar a forma como a região é vista nacionalmente?

Prof. Luiz Travassos  - Sim. A região da Gruta Rei do Mato já era conhecida por sua importância turística e espeleológica, mas a identificação de novas cavidades, registros arqueológicos e biodiversidade subterrânea amplia sua relevância nacional. Sete Lagoas pode ser vista não apenas como destino turístico, mas como uma área estratégica para pesquisa científica, conservação do carste, educação ambiental e valorização do patrimônio cultural brasileiro.

O que ainda falta ser estudado na região e quais podem ser os próximos passos das pesquisas?

Prof. Luiz Travassos - Ainda é necessário aprofundar os estudos sobre a fauna subterrânea, confirmar possíveis novas espécies, realizar análises arqueológicas mais detalhadas, estudar a circulação da água subterrânea, monitorar impactos ambientais e refinar a classificação de sensibilidade das cavidades. Os próximos passos incluem novas campanhas de campo, topografia de cavidades, análises laboratoriais, datações, estudos genéticos, monitoramento fotográfico e elaboração de planos de manejo específicos.

Como a população local pode contribuir para a preservação desse patrimônio natural, histórico e científico?

Prof. Luiz Travassos - A população local pode contribuir evitando entrar em cavidades sem autorização, não retirando rochas, sedimentos ou vestígios, não fazendo pichações, denunciando danos, respeitando trilhas e áreas protegidas e valorizando o patrimônio da região. Também pode participar de ações educativas, visitas guiadas, projetos escolares e atividades de divulgação científica. A conservação só se torna efetiva quando a comunidade reconhece que esse patrimônio também faz parte de sua identidade e de sua história.

 

Por Caio Pacheco, jornalista, escritor e autor do livro-reportagem “Origens – A jornada humana no Circuito das Grutas”, Editora Literíssima (2023)

 

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