
ENTREVISTA EXCLUSIVA
Professor Luiz Eduardo Panisset Travassos - PUC Minas
“A Grutinha e a Gruta Rei do Mato têm relevância por reunirem registros naturais e culturais em um mesmo contexto paisagístico. Elas não são apenas feições geológicas; também integram uma paisagem de memória, ocupação e uso humano. A presença de pinturas rupestres e outros vestígios arqueológicos reforça seu valor como patrimônio cultural brasileiro”
Luiz Eduardo Panisset Travassos é geógrafo formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, instituição onde também concluiu a especialização em Gestão Ambiental de Resíduos Sólidos, o mestrado e o doutorado em Geografia. É ainda doutor em Carstologia pela Universidade de Nova Gorica, na Eslovênia. Desde 2010, atua como professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da PUC Minas, onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado nas áreas de Geografia Física, Geomorfologia Cárstica, Carstologia, Geoconservação, Geopatrimônio, Meio Ambiente e Cultura. Foi coordenador da Seção de História da Espeleologia da Sociedade Brasileira de Espeleologia entre 2007 e 2013. Atualmente, é coordenador do Comitê de Carste para a América do Sul da União Geográfica Internacional e Pesquisador Associado do Karst Research Institute, na Eslovênia. Realizou dois estágios de pós-doutoramento na Eslovênia, um no Instituto de Pesquisas do Carste e outro na Academia Eslovena de Ciências e Artes. Sua trajetória acadêmica reúne ampla produção científica, experiência em orientação e atuação internacional, especialmente nos estudos sobre carste, cavernas, geopatrimônio, geoconservação e relações entre natureza, território e cultura.
Qual é a importância científica da descoberta de 48 novas cavidades naturais na região da Gruta Rei do Mato?
Prof. Luiz Travassos - A descoberta de 48 novas cavidades amplia de forma muito significativa o conhecimento sobre o sistema cárstico da região da Gruta Rei do Mato. Isso mostra que a área é muito mais complexa e rica do que se conhecia anteriormente, reunindo cavernas, abrigos, condutos, feições de dissolução, depósitos sedimentares, ambientes úmidos e registros biológicos e arqueológicos. Cientificamente, esse levantamento permite compreender melhor a evolução geomorfológica do carste de Sete Lagoas, a circulação da água subterrânea e a distribuição dos ambientes subterrâneos.
Como esse levantamento pode contribuir para a preservação ambiental e arqueológica em Sete Lagoas e no Circuito das Grutas?
Prof. Luiz Travassos - O levantamento fornece uma base técnica para orientar a gestão e a proteção das cavidades. Ao identificar onde estão as cavernas, quais são mais sensíveis e quais apresentam valor arqueológico, biológico ou geológico, torna-se possível definir áreas prioritárias de conservação, controlar acessos, orientar o turismo, evitar impactos e planejar ações de monitoramento. Isso fortalece não apenas a proteção do Monumento Natural Estadual Gruta Rei do Mato, mas também a valorização do Circuito das Grutas como território de patrimônio natural e cultural.

O estudo identificou espécies com potencial de serem inéditas para a ciência. Qual o impacto dessa descoberta para a biologia subterrânea no Brasil?
Prof. Luiz Travassos - A identificação de espécies potencialmente novas é muito relevante porque os ambientes subterrâneos ainda são pouco conhecidos no Brasil. Cada nova ocorrência pode revelar formas de vida altamente adaptadas à escuridão, à escassez de alimento e à estabilidade ambiental das cavernas. Isso contribui para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade subterrânea brasileira, reforça a importância de Minas Gerais para a bioespeleologia e mostra que cavernas aparentemente pequenas ou pouco conhecidas podem abrigar organismos de grande valor científico.
Como funciona o processo de confirmação de uma nova espécie descoberta em ambientes subterrâneos?
Prof. Luiz Travassos - A confirmação exige um processo cuidadoso. Primeiro, os organismos são coletados com autorização e métodos adequados. Depois, são analisados por especialistas, que comparam suas características morfológicas com espécies já descritas. Em muitos casos, também são feitos estudos genéticos. Se for comprovado que o organismo não corresponde a nenhuma espécie conhecida, os pesquisadores elaboram uma descrição formal, escolhem um nome científico e publicam o resultado em revista especializada. Só após essa publicação a espécie passa a ser oficialmente reconhecida pela ciência.
O que significa uma espécie ser considerada exclusiva de ambientes subterrâneos e qual a importância ecológica desses organismos?
Prof. Luiz Travassos - Uma espécie exclusiva de ambientes subterrâneos é aquela que depende das cavernas ou do meio subterrâneo para viver. Muitas dessas espécies apresentam especializações específicas, como redução dos olhos, perda de pigmentação, alongamento de antenas ou pernas e metabolismo mais lento. Elas são importantes porque ajudam a manter o equilíbrio ecológico das cavernas, participando da decomposição de matéria orgânica, da ciclagem de nutrientes e das cadeias alimentares subterrâneas. Além disso, funcionam como indicadores da qualidade ambiental desses ecossistemas.
Quais desafios existem na conservação de ecossistemas subterrâneos e cavernas em Minas Gerais?
Prof. Luiz Travassos - Os principais desafios envolvem a pressão urbana, a mineração, a expansão de infraestrutura, o turismo desordenado, a contaminação da água subterrânea, o vandalismo, a retirada de sedimentos ou espeleotemas e a falta de conhecimento sobre muitas cavidades. Em Minas Gerais, onde há grande ocorrência de rochas carbonáticas e forte uso econômico do território, é essencial integrar pesquisa científica, gestão ambiental, fiscalização e educação patrimonial.
As pinturas rupestres encontradas podem ajudar a compreender como viviam os povos antigos da região? De que maneira?
Prof. Luiz Travassos - Sim. As pinturas rupestres são registros materiais da presença humana antiga na paisagem. Elas podem indicar formas de representação simbólica, uso de abrigos, relação com animais, rotas de circulação, práticas culturais e modos de ocupação do território. Quando analisadas junto com vestígios cerâmicos, instrumentos, sedimentos e localização dos sítios, ajudam a reconstruir aspectos da vida, da mobilidade e da organização dos grupos humanos que habitaram ou utilizaram a região.

Qual a relevância arqueológica da Grutinha e da Gruta Rei do Mato para o patrimônio cultural brasileiro?
Prof. Luiz Travassos - A Grutinha e a Gruta Rei do Mato têm relevância por reunirem registros naturais e culturais em um mesmo contexto paisagístico. Elas não são apenas feições geológicas; também integram uma paisagem de memória, ocupação e uso humano. A presença de pinturas rupestres e outros vestígios arqueológicos reforça seu valor como patrimônio cultural brasileiro, pois ajuda a compreender a longa relação entre os povos antigos e os ambientes cársticos de Minas Gerais.
Como a presença de pinturas rupestres e vestígios cerâmicos pode fortalecer o turismo cultural e científico em Sete Lagoas?
Prof. Luiz Travassos - Esses elementos ampliam o significado turístico da região. O visitante deixa de conhecer apenas uma caverna bonita e passa a compreender um território com história, ciência, cultura e memória. Isso pode fortalecer roteiros de turismo cultural, educação patrimonial, geoturismo e divulgação científica, desde que a visitação seja planejada com cuidado. A presença desses vestígios também pode atrair pesquisadores, estudantes e instituições interessadas em arqueologia, geografia, biologia, geologia e conservação.
Quais cuidados precisam ser adotados para equilibrar preservação ambiental e visitação turística em áreas como a Gruta Rei do Mato?
Prof. Luiz Travassos - É necessário controlar o acesso às áreas sensíveis, manter trilhas definidas, evitar toque em pinturas rupestres, espeleotemas e sedimentos, instalar sinalização adequada, capacitar guias, limitar grupos quando necessário e realizar monitoramento contínuo. Também é importante separar áreas de visitação pública de áreas destinadas apenas à pesquisa ou conservação. O turismo deve ser instrumento de valorização e educação, não de degradação.
Esse tipo de estudo pode abrir portas para novas pesquisas acadêmicas e investimentos na região? Como?
Prof. Luiz Travassos - Sim. Um inventário como esse cria uma base científica para novos projetos em geomorfologia, arqueologia, biologia subterrânea, hidrogeologia, geoconservação, turismo sustentável e educação ambiental. Também pode apoiar a captação de recursos, convênios com universidades, editais de pesquisa, projetos de monitoramento e ações de valorização do Circuito das Grutas. Quanto mais bem documentado é o patrimônio, maiores são as possibilidades de investimento responsável.
Qual a importância da participação de universidades e centros de pesquisa em projetos de preservação como este?
Prof. Luiz Travassos - Universidades e centros de pesquisa garantem rigor técnico, formação de estudantes, produção de conhecimento e continuidade das investigações. Eles ajudam a transformar dados de campo em diagnósticos, mapas, relatórios, publicações, materiais educativos e propostas de gestão. Além disso, aproximam ciência, poder público e sociedade, tornando a preservação mais fundamentada e eficiente.
A descoberta dessas riquezas naturais e arqueológicas pode mudar a forma como a região é vista nacionalmente?
Prof. Luiz Travassos - Sim. A região da Gruta Rei do Mato já era conhecida por sua importância turística e espeleológica, mas a identificação de novas cavidades, registros arqueológicos e biodiversidade subterrânea amplia sua relevância nacional. Sete Lagoas pode ser vista não apenas como destino turístico, mas como uma área estratégica para pesquisa científica, conservação do carste, educação ambiental e valorização do patrimônio cultural brasileiro.
O que ainda falta ser estudado na região e quais podem ser os próximos passos das pesquisas?
Prof. Luiz Travassos - Ainda é necessário aprofundar os estudos sobre a fauna subterrânea, confirmar possíveis novas espécies, realizar análises arqueológicas mais detalhadas, estudar a circulação da água subterrânea, monitorar impactos ambientais e refinar a classificação de sensibilidade das cavidades. Os próximos passos incluem novas campanhas de campo, topografia de cavidades, análises laboratoriais, datações, estudos genéticos, monitoramento fotográfico e elaboração de planos de manejo específicos.
Como a população local pode contribuir para a preservação desse patrimônio natural, histórico e científico?
Prof. Luiz Travassos - A população local pode contribuir evitando entrar em cavidades sem autorização, não retirando rochas, sedimentos ou vestígios, não fazendo pichações, denunciando danos, respeitando trilhas e áreas protegidas e valorizando o patrimônio da região. Também pode participar de ações educativas, visitas guiadas, projetos escolares e atividades de divulgação científica. A conservação só se torna efetiva quando a comunidade reconhece que esse patrimônio também faz parte de sua identidade e de sua história.
Por Caio Pacheco, jornalista, escritor e autor do livro-reportagem “Origens – A jornada humana no Circuito das Grutas”, Editora Literíssima (2023)
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