
Três meses após ter a carteira de trabalho assinada na loja de balões de festa em que trabalhou durante quase um ano na região Centro-Sul de Belo Horizonte, Victoria Menezes, de 25 anos, foi demitida, em abril. A justificativa da dona do negócio foi a redução do quadro em meio à pandemia. “Ela disse que, quando melhorasse, me chamaria para trabalhar lá de novo”, conta.
A moradora do bairro Jardim Alvorada, na região Noroeste, ainda conseguiu um acerto retroativo para o período em que trabalhou sem carteira. “Consegui pagar as contas no mês de abril e deste mês agora, e acabou”, diz ela, que já teve os pedidos para o auxílio emergencial negados duas vezes – e tenta agora pela terceira vez.
Victoria faz parte do grupo de 1,4 milhão de brasileiros que perderam o emprego no mês de abril, o primeiro afetado integralmente pela crise do coronavírus, que levou à paralisação de grande parte das atividades econômicas. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado ontem pelo Ministério da Economia, o saldo de admissões (598.596) e de demissões registrou a perda de 860 mil postos de trabalho, o pior número na série histórica, iniciada em 1992. Do total, os setores de comércio e serviços, juntos, perderam nada menos que 592.587 vagas só em abril. Em Minas Gerais, foram extintas 88.298 vagas de trabalho em todos os setores – 20 mil só na capital mineira.
De acordo com o Sindicato de Lojistas de Belo Horizonte (Sindilojas-BH), a previsão inicial era que o varejo tivesse cerca de 8.000 demissões com 70 dias de paralisação, podendo chegar a 20 mil nos meses posteriores. “Devemos ter de três a quatro meses com vendas inferiores ao normal. Tivemos um empobrecimento da população e uma perda salarial e de trabalho muito grande, não conseguimos dimensionar o que será isso. Estamos falando de 5.000 lojas fechadas. Isso é um impacto muito grande na circulação de dinheiro”, comenta o presidente da entidade, Nadim Donato.
Bares e restaurantes
Pablo Bahia é proprietário de um bar e um restaurante na região Centro-Sul. Desde 20 de março, por determinação do decreto municipal de Alexandre Kalil (PSD), fechou o bar, que existe há 83 anos. O restaurante está atendendo pelo delivery, mas, segundo Bahia, o faturamento que sobrou representa 20% do que era antes da pandemia. “Sou a favor do fechamento, mas não teve planejamento nenhum. O decreto fechou tudo de uma hora pra outra. Perdi R$ 1.000 só de compras na Ceasa que tinha feito para aquela semana. De mercadoria, foram mais R$ 3.000”, conta ele, que demitiu, no total, seis de 18 funcionários.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) em Minas, Ricardo Rodrigues, cerca de 20% de todos os estabelecimentos de bares e restaurantes em BH e região metropolitana faliram desde o início da pandemia. Para ele, o problema maior para o setor é não ter previsão de reabertura. “Se for 24 de dezembro, que seja. Quem tiver condição sobreviver até lá, fica, quem não (tiver) vive de outra forma. É melhor que ficar na espera, acumulando dívidas”, afirma.
Menos serviços
O setor de serviços foi o que mais perdeu vagas em abril, com saldo negativo de 362.378, seguido pelo comércio, com 230.209 vagas a menos no país.
Redução de jornada
De acordo com os dados do Ministério da Economia, 8,15 milhões de trabalhadores tiveram, até o último dia 25, os contratos suspensos ou a jornada reduzida pela Medida Provisória (MP) do governo federal, de 1º de abril. Do total, 4,4 milhões de acordos foram pela suspensão do contrato de trabalho.
Para o presidente do Sindilojas-BH, Nadim Donato, a medida impediu que houvesse mais demissões. “Ajudou demais. Não tem precedentes. Essa redução de jornada ainda vai continuar, porque agora estamos funcionando num horário reduzido”, afirma ele, que diz que o ideal é que a medida fosse prorrogada para além do limite de 90 dias devido à retomada economia, que deve ser lenta.
Proprietário de um bar e um restaurante, o empresário Pablo Bahia suspendeu o contrato de metade dos 12 funcionários dos dois estabelecimentos. A outra metade teve o contrato suspenso pelas regras da MP. Segundo o presidente da Abrasel em Minas, Ricardo Rodrigues, a MP ajudou muito, mas não resolve. “Se não tem uma data, uma previsão pra voltar, você vai suspender o contrato do garçom por 60 dias – e depois?”, questiona Rodrigues.

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