
Uma advogada de 41 anos foi agredida e chamada de “pretinha comedora de feijão cru” durante discussão por um lote vago, em Contagem, na Grande BH, na tarde de ontem (1º). A PM registrou a ocorrência como esbulho possessório, ou seja, crime de usurpação de um imóvel. Kelly Cristina de Oliveira disse, ao BHAZ, que sentiu “como se fosse um nada” após a injúria sofrida e promete tomar as medidas judiciais.
De acordo com a PM, a confusão teve início após um homem de 28 anos alegar ser dono de um lote na avenida dos Trompetes, no bairro Estâncias Imperiais. Segundo esse jovem, outra pessoa teria invadido a propriedade e se recusava a deixar o local. Contudo, o suposto invasor também alegou ser dono do terreno, e disse que estaria fazendo a limpeza para a construção de muros ao redor.
Os dois chegaram a apresentar documentos que, conforme eles, comprovavam a posse do lote. Porém, existia diferenças nas datas. A do homem que fazia a limpeza datava 1999, e o outro 2020. Como os dois não chegavam a um acordo, o homem que fazia a limpeza chamou o irmão, que disse ser policial civil, no entanto, ele é agente penitenciário. O outro homem acionou a advogada.
“Chegando ao local me apresentei e assim que meu cliente aproximou, o homem, que o acusava de invasor, começou a ficar agressivo. Falei com ele que iria filmar tudo e assim fiz. Num determinado momento ele tomou o celular da minha mão e me puxou pelo braço. Depois disso vieram as pavorosas palavras”, conta a advogada.
Em um momento de discussão, o policial penal teria chamado a defensora de “advogada pretinha, comedora de feijão cru”. Além disso, segundo o boletim de ocorrência, o homem também teria agredido a advogada e forçado ela e o cliente a passarem por uma vistoria. “Fomos revistados por conhecidos do invasor que se passaram por policiais civis. Todos eles estavam armados, mas eram policiais penais”.
Após a chegada da PM, todos foram levados para a Delegacia de Plantão de Contagem e a corregedoria da polícia penal foi acionada. A advogada não registrou ocorrência de injúria racial no momento, com o caso sendo colocado apenas como esbulho possessório.
Diante da injúria racial sofrida, Kelly se sentiu “um nada”, conforme definiu para a reportagem. “Naquela hora senti como se estivéssemos voltado na época da escravidão. Eu estava exercendo a minha profissão, estava trabalhando e fui agredida devido à cor da minha pele. Tudo que lutei para estudar era como se fosse nada”, desabafa a advogada.
Uma representação será feita na Justiça e no Ministério Público. Kelly deixa uma mensagem para as pessoas vítimas de injúria: “Não fiquem caladas, procurem seus direitos. Vou levar adiante porque se todos eles fizeram isso comigo, certamente fazem com outros. Não podemos ficar a mercê de pessoas como estas”, conclui.
A injúria racial consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.
Em Belo Horizonte, a Decrin (Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes de Racismo, Xenofobia, LGBTfobia e Intolerâncias Correlatas) registra crimes com recorte ou natureza racial. A delegacia fica na avenida Barbacena, número 288, no bairro Barro Preto, região Centro-Sul de BH.

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