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Estresse crônico: uma crise silenciosa

Inflação, desemprego e endividamento: a incerteza financeira é a principal causa de preocupação e estresse para quase 8 de 10 brasileiros

22/09/2022 às 10h12
Por: Redação Fonte: Mega Cidade com O Tempo
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Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de países com maior número de pessoas afetadas pela síndrome de burnout – distúrbio emocional relacionado ao estresse no trabalho com sintomas de exaustão extrema
Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de países com maior número de pessoas afetadas pela síndrome de burnout – distúrbio emocional relacionado ao estresse no trabalho com sintomas de exaustão extrema

Na rotina do motoboy Frank Jesus, 43, o estresse é uma das poucas certezas. “Tenho andado bastante nervoso. Trabalhando no trânsito, então! Não é brincadeira”, relata, dizendo que até faz atividades físicas na tentativa de aliviar a carga. “Mas tem dias que são piores que os outros, e nem os exercícios resolvem muito”, observa. Para o taxista Maurício Marquezine, 62, a situação não é muito diferente. “Tem carro demais na pista”, queixa-se, dizendo que o trabalho tem sido sua principal fonte de irritação. “E, sinceramente, não faço nada para relaxar, não. Eu só faço trabalhar. Quem tem contas para pagar não tem outra saída, não é?”, argumenta. 

Das ruas, sobre quatro ou duas rodas, para o interior dos lares, o dia a dia estressante continua sendo uma realidade. É o que indica a história de Isaura Castro, 44. “Tenho andado com os nervos abalados e irritada”, confessa a dona de casa, inteirando que o trabalho manual, com artesanato, tem contribuído para que ela volte ao eixo. No caso da faxineira Eliana Pereira, a situação é ainda pior. Questionada se se sente estressada, reage de pronto: “Nossa Senhora! Estou, e muito. Até passaram remédio para eu tomar”, reconhece, dizendo que vem enfrentando dificuldades para dormir e que lhe tem faltado disposição para dar conta das tarefas de sua rotina. “Hoje mesmo, faltei ao trabalho. Mas, amanhã, tenho que ir”, expõe. No caso dela, a moradia em uma região com histórico de alagamentos em época de chuva ajuda a entender o agravado quadro de estresse. “Agora, que eu saí da (região de) enchente, acho que vou ficar mais calma”, alivia-se.

Em maior ou menor escala, é sensível como o relato de cada um desses personagens, ouvidos pela reportagem enquanto circulavam pela área central de Belo Horizonte, reforça a ideia de que problemas relacionados ao estresse são quase onipresentes na rotina dos brasileiros.

Essa percepção corrobora apontamentos da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR). Conforme a entidade, 72% da população que está no mercado de trabalho sofre com estresse. Um índice tão alarmante que coloca o país em segundo lugar no ranking de territórios com maior número de pessoas afetadas pela síndrome de burnout – distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema resultante de situações de trabalho desgastante. Ainda de acordo com a Isma-BR, a preocupação financeira – evidenciada nas entrevistas por falas sobre a apreensão pelas “contas a pagar” – é a principal razão de estresse para quase 8 de 10 brasileiros, que se veem assombrados por uma realidade de inflação alta, com o acumulado nos últimos 12 meses acima de dois dígitos, e pela elevada taxa de desemprego e de endividamento das famílias.

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Crise silenciosa

Ponderando que o estresse nem sempre é um problema – sendo, na verdade, uma resposta natural do organismo a situações, boas ou ruins, que exigem adaptação –, o médico e psicólogo Roberto Debski reconhece, no Brasil, uma crise silenciosa de distúrbios causados pela percepção de uma rotina cronicamente estressante. Ele adverte que, além dos impactos mais conhecidos, como o aumento da ansiedade e a depressão, o fenômeno gera outras diversas complicações, elevando o risco de doenças cardiovasculares e complicações gastrointestinais, gerando alterações no sono e na libido e comprometendo o sistema imunológico, o que pode agravar condições de saúde preexistentes.

“Ou seja, quando crônico, o estresse é, geralmente, bastante prejudicial para a nossa saúde”, sinaliza, fazendo uma distinção entre os quadros crônicos e os agudos: “No primeiro caso, as reações do corpo ao agente estressor não vão embora. Já no último, a reação é passageira e pode ser benéfica, indicando necessidade de adaptação física ou mental rápidas”, detalha. 

Em uma demonstração gráfica da distinção entre um quadro e outro, Debski nos convida a imaginar uma situação em que somos perseguidos por um cachorro raivoso. “É algo que vai disparar o estresse agudo, nos levando a correr, a nos refugiar ou mesmo a enfrentar o animal. Quando a situação de perigo passar, teremos o relaxamento. Contudo, se há cronicidade, é como se o tempo todo esse cachorro estivesse atrás de nós, como se o perigo estivesse sempre à espreita, fazendo que a gente precisasse estar constantemente em alerta. Nessa hipótese, não conseguimos relaxar”, pontua, sublinhando que, em vez do animal raivoso, o estresse crônico costuma ser consequência de problemas financeiros, relacionais e/ou profissionais que parecem ser indissolúveis.

“Portanto, se o quadro é de cronicidade, vamos precisar, sim, procurar um especialista – um médico assistente e/ou um psicólogo – para que possamos conseguir lidar com essa sobrecarga – seja com tratamento medicamentoso, seja com tratamento psicoterápico ou com uma integração entre essas diferentes abordagens”, sinaliza o profissional da saúde.

Autocuidado. “Para lidar melhor com eventos estressores, sem que eles nos sobrecarreguem, precisamos estar com a saúde em dia – o que implica cuidar do corpo, da mente e das relações”, sustenta o médico e psicólogo. Ele salienta, portanto, que medidas de autocuidado – como uma rotina que inclua atividades físicas regulares, uma dieta balanceada e nutritiva e um sono reparador – são importantes para a prevenção de problemas desencadeados pelo estresse crônico.

“Se tivermos pouca resistência física e pouca resiliência emocional, qualquer grau de sobrecarga vai nos abalar. Então o principal para se prevenir desse tipo de problema é buscar ter uma vida saudável, fazendo escolhas melhores, sabendo dizer ‘não’ e evitando se expor demais a fatores estressores”, comenta, reforçando que, quando necessário, profissionais da saúde devem ser acionados.

Pandemia

Roberto Debski lembra que a pandemia da Covid-19 gerou um significativo aumento dos indicadores de estresse e de ansiedade em todo o mundo. “As pessoas precisaram se adaptar abruptamente a uma nova realidade e se sentiram mais vulneráveis – os riscos à vida e à saúde ficaram mais evidentes, além de haver a sensação de ameaça à sustentabilidade financeira dos indivíduos. É um contexto que agravou, por ao menos dois anos, um quadro que já era preocupante, aumentando os índices de estresse crônico, o que desencadeou uma série de problemas”, sustenta.

Com a flexibilização, a tendência é que esse quadro geral apresente alguma melhora. Mas não imediatamente. “A questão é que a volta às atividades antes rotineiras também exige adaptação, o que também pode desencadear estresse”, sinaliza, indicando ser recomendável que essas transições sejam feitas pouco a pouco, se cercando de cuidados.

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