
A poética da travessia e a força das narrativas negras e de terreiro renderam à produção setelagoana “No Centro da Margem” oito importantes premiações durante o 26º Festival de Teatro de Guaçuí, no Espírito Santo. O espetáculo, produzido pela Ovorini Carpintaria Cênica, encerrou sua participação no encontro capixaba com reconhecimento em categorias técnicas, artísticas e populares.
A montagem conquistou os prêmios de Melhor Espetáculo Alternativo, Melhor Dramaturgia, Melhor Atuação, Melhor Direção, Melhor Sonoplastia, Júri Popular, Prêmio Especial do Júri e Prêmio Paulo Honório, concedido por indicação do Grupo Gota Pó e Poeira.
As conquistas se somam à trajetória de pesquisa artística desenvolvida pela produção, centrada no corpo, na memória e nas vivências de um homem preto, gay e pertencente às tradições de Axé.
Inspirado conceitualmente na ideia de travessia presente na obra de Guimarães Rosa, o espetáculo propõe uma reflexão sobre os caminhos que um corpo marginalizado precisa construir para existir em uma sociedade cujos espaços centrais, muitas vezes, não foram pensados para acolhê-lo.
Em vez de tratar a margem e a periferia apenas como espaços de ausência ou escassez, “No Centro da Margem” transforma esses territórios em lugares de resistência, preservação da memória e criação poética. No palco, referências ancestrais e vivências de terreiro se misturam a experiências autobiográficas e à memória coletiva.
“Os prêmios são importantes, mas são, sobretudo, mais uma resposta para aquilo que venho acreditando há anos: esse trabalho precisava existir”, destaca o ator Alisson Oliveira.
A dramaturgia da montagem é assinada por Djaelton Quirino, responsável por transformar memórias pessoais, inquietações e feridas históricas em matéria poética. A direção é de Alex Fabiano, com uma construção cênica baseada na escuta e na pesquisa compartilhada entre os integrantes da equipe.
Outro elemento importante da obra é o resgate da memória familiar. Fragmentos de diálogos e experiências vividas no ambiente doméstico ajudam a construir a narrativa e conectam as experiências pessoais do artista a questões mais amplas e universais.
A dimensão espiritual também ocupa espaço central no espetáculo. A figura simbólica de Exu, relacionada aos caminhos, às encruzilhadas, às ruas e aos encontros, aparece como elemento fundamental tanto na construção do texto quanto na trajetória artística do grupo.
Para Alisson Oliveira, o resultado alcançado em Guaçuí vai além do reconhecimento técnico e artístico da montagem. As premiações também representam a valorização de corpos e histórias que, historicamente, foram colocados à margem dos espaços de destaque.
“Eu penso na quantidade de caminhos que precisaram ser abertos para que um homem preto, gay e de Axé pudesse estar no centro da cena contando a própria história. A margem é de onde eu venho, é onde minha memória se guardou e é de onde eu sigo atravessando”, afirma o ator.
Entre as oito conquistas, o Prêmio Paulo Honório teve um significado especial para a equipe. A premiação foi concedida por indicação direta do Grupo Gota Pó e Poeira, anfitrião e organizador do festival, e representa, segundo os integrantes da produção, o reconhecimento entre artistas e coletivos que enfrentam os desafios do teatro independente.
“Esse prêmio tem uma importância muito particular para mim porque veio de um grupo que também vive e constrói o teatro. É um reconhecimento que nasce do encontro, da generosidade e da possibilidade de um artista reconhecer o trabalho do outro”, reforça Alisson Oliveira.
Com oito prêmios conquistados no Espírito Santo, “No Centro da Margem” amplia a projeção do teatro produzido em Sete Lagoas. Para o coletivo, ocupar espaços de destaque não significa deixar para trás as origens, mas reafirmar que a margem também é lugar de criação, memória e resistência — e que o direito de narrar a própria história é inegociável.
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