
Sete Lagoas tem o primeiro caso de um consumidor que confirma ter comprado a cerveja Belorizontina em um grande supermercado. Foram duas garrafas adquiridas por M.R.L., 39 anos. Ele ingeriu as duas que comprou durante o intervalo entre o Natal e o Réveillon. Apesar da cerveja ser de lotes contaminados, o consumidor não passou mal, sequer teve sintomas das demais vítimas que morreram ou permanecem internadas em UTI, principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
O que fazer se beber cerveja contaminada?
Depois que a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) confirmou contaminação por dietilenogligol e monoetilenogligol em três lotes da cerveja Belorizontina, produzida pela Backer, a apreensão entre os amantes da bebida aumentou.
E as dúvidas se multiplicam: quem ingeriu a bebida e passou mal mas melhorou ou não apresentou nenhum sintoma ainda está em risco? É preciso procurar um médico?
Os sintomas tendem a aparecer em até 48 horas depois da ingestão da cerveja contaminada, explicam. Mas “quem bebeu a cerveja há poucos dias precisa ficar atento”, diz o médico nefrologista Fabrício Augusto Marques Barbosa. E até o fabricante do rótulo apela: “Não bebam a Belorizontina”.
“Mal-estar, dor abdominal, diarreia e dor lombar persistentes podem ser sintomas de intoxicação. A pessoa ainda pode ter grande redução na quantidade de produção de urina, o que faz com que fique horas ou até dias sem urinar. Caso identifique esses sintomas, é importante procurar atendimento médico o quanto antes”, alerta.
O nefrologista Vinícius Sardão Colares, diretor da Sociedade Mineira de Nefrologista, explica: “Temos poucos relatos de intoxicação pelo dietilenoglicol. E a grande maioria é relacionada a surtos por contaminação. O que podemos afirmar é que, ao serem ingeridos, os dois causam sintomas muito parecidos no corpo, como a. insuficiência renal.” Mas há diferenças na evolução dos quadros clínicos. O dietilenoglicol (DEG) geralmente leva a paralisia dos nervos do rosto, o que não ocorre no caso do outro composto, e ainda provoca intoxicação hepática, detalha o especialista.
Segundo Vinícius Sardão, embora não se saiba exatamente como funciona o mecanismo de toxicidade dessas substâncias dentro das células, estudos em ratos apontam que ambas são eliminadas do corpo em até sete horas após a ingestão. “A substância entra no corpo e logo é quebrada pelo fígado em subcompostos. Esses são eliminados pela urina, num processo que dura cerca de sete horas. Ela é eliminada em um período muito curto. E, por isso, os sintomas se desenvolvem tão rapidamente”, disse o especialista.
Estudos apontam que cinco dias após a ingestão apenas 3% do dietilenoglicol são encontrados no organismo. Apesar do metabolismo rápido, as lesões são graves, pela ação de componentes tóxicos nos órgãos.
Os primeiros órgãos atingidos são o fígado e rins. “As lesões se agravam, mesmo depois de as substâncias terem sido eliminadas”, explica. Os sintomas aparecem em até 48 horas. Existem poucos casos com desenvolvimento de sintomas tardios e somente um depois de uma semana da exposição. “Mas isso foge da normalidade”, detalhou.
De qualquer forma, quem bebeu a cerveja da Backer há poucos dias e apresenta os sintomas de intoxicação descritos no início desta reportagem deve procurar atendimento médico o quanto antes, recomenda o nefrologista Fabrício Augusto.
A principal característica da intoxicação é a persistência dos sintomas. O especialista Vinícius Sardão diferencia a intoxicação da ressaca: “Quando você está de ressaca, você melhora ao longo do dia. Pessoas intoxicadas têm vômitos e náuseas sem melhora ao decorrer do dia”. Um sintoma específico da intoxicação por dietilenoglicol é a alteração na musculatura, principalmente, na região dos olhos. “A pessoa não consegue fechar os olhos, tem dificuldades para piscar. É como se os olhos só ficassem abertos. Também pode haver dificuldade na visão”, explicou. A orientação, nesses casos, é não esperar por mais um dia para procurar o hospital.
Ao anunciar a confirmação da presença de dietilenoglicol no sangue de quatro pacientes, em amostras de cervejas Belorizontina e em tanque da fábrica, a Backer, o delegado Tales Bittencourt citou estudo que aponta que a dose tóxica mínima é 0,14 miligrama por quilo de peso corporal e que faixa de letalidade varia entre 1 e 1,63 grama por quilo. Ou seja, há uma variação grande, que depende do organismo de cada pessoa. O médico Fabrício Augusto explica que o índice é estipulado a partir de outros casos de intoxicação no mundo.


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