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Dia do Orgasmo: fatores culturais explicam desigualdade de gênero no prazer

Reação corporal traz benefícios para a vida das pessoas, mas ainda é pouco discutida

31/07/2020 11h54
Por: Redação Fonte: O Tempo
Imagem ilustrativa
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Uma sensação de prazer capaz de melhorar a qualidade do sono, de reduzir os níveis de estresse e até de fortalecer o sistema imunológico: não é à toa que o orgasmo tenha uma data, 31 de julho, dedicada a festejá-lo. E se o tema, sem dúvida, merece ser celebrado, é também oportuno que se aproveite da efeméride para colocá-lo em debate – afinal, trata-se de um assunto que ainda carece de uma discussão mais ampliada e aprofundada.

“Tudo nesse mundo é sobre sexo – exceto sexo, que é sobre poder”. A frase, atribuída ao escritor britânico Oscar Wilde, serve para explicitar como as estruturas socioculturais, de fato, parecem ser fatores decisivos nas dinâmicas que permitem, a alguns, chegar ao auge do prazer equanto, por outro lado, outros passam uma vida inteira sem nunca alcançar essa experiência. Ocorre que o orgasmo – que, invariavelmente, é individual, mas que pode ser alcançado a partir da interação com uma ou mais pessoas – é também resultado de uma complexa e intrincada somatória de fatores não só sexuais, como qualquer outra relação humana.

E uma série de estudos conduzidos por diversas universidades dos Estados Unidos, publicada na revista científica “Archives of Sexual Behavior”, em 2018, coloca em panorama como fatores gênero e orientação sexual parecem estar correlacionados à capacidade de alguém alcançar o clímax.

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O artigo, um retrato da frequência dos orgasmos em diferentes grupos sociais, indica que mulheres heterossexuais só alcançam o orgasmo em 65% das relações. As bissexuais chegam lá 66% das vezes e, as lésbicas, 86%. Por outro lado, homens heterossexuais vivenciam o máximo prazer sexual em 95% de suas relações. Os gays têm orgasmos em 89% dos casos e, os bissexuais, em 88%. Chama a atenção que até mesmo o grupo de mulheres que mais vezes chega ao clímax sexual, as lésbicas, tem menos chances de ter um orgasmo se comparado ao grupo de homens que menos vezes chega lá, os bissexuais.

Entre as muitas razões que poderiam justificar essa desigualdade de gênero em termos de prazer está o fato de elas serem, normalmente, desestimuladas a explorar seu próprio corpo. “Enquanto o homem é incentivado, para as mulheres o papo é sempre: ‘Tira a mão daí, menina’. E, se a gente é impedido de descobrir o que nos dá prazer, o orgasmo vai ficando mais e mais distante”, examina Tami Bhavani, terapeuta sexual somática. Outros aspectos culturais incidem sobre essa ausente paridade: “Hoje, por mais que exista um discurso libertador e de empoderamento, muitas ainda carregam crenças limitantes que vieram de suas mães e que fazem que elas não se entreguem ao ato sexual”.

Também contribui para essa evidente disparidade o fato de as mulheres serem educadas a se entender como cuidadoras. “Essa ideia de que devemos estar sempre prontas a servir ainda é muito presente”, pontua a terapeuta. Já os homens são desde muito jovens ensinados a receberem cuidados. Com efeito, as estatísticas mostram uma problemática desigualdade do prazer entre as duas partes nos casais heterossexuais.

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Autoconhecimento e exploração do próprio corpo é melhor caminho para o orgasmo

Um importante passo para quebrar esse ciclo e tornar o orgasmo mais democrático e acessível, pontua Tami, é compreender a masturbação como aliada do autoconhecimento. O que vai ser mais interessante no caso daqueles que se permitirem explorar o corpo por inteiro, e não focando apenas na estimulação genital.

“A prática vai ser mais efetiva para que a pessoa possa se autodescobrir se ela sentir sua própria pele e amplificar essas sensações com a respiração – como se fosse uma meditação. Isso potencializa a nossa energia orgástica e o nosso prazer. Assim, quando a gente se entregar no ato sexual ao outro, vai se entregar por completo”, aconselha.

 

A sugestão é especialmente importante no atual cenário, quando o isolamento social é apontado como a melhor alternativa para reduzir o impacto da pandemia da Covid-19. Tanto que autoridades passaram a recomendar a prática – como fez a prefeitura de Nova York, nos Estados Unidos, que sugeriu o método como alternativa aos moradores da megalópole.

O sexólogo e educador Pedro Drubscky concorda que o melhor caminho para se chegar ao orgasmo passa pelo autoconhecimento e pela liberdade de explorar o próprio corpo. Ele lembra, no entanto, que alguns casos podem requerer ajuda profissional. “Existem pesquisas sobre anorgasmia feminina e masculina, e a grande maioria das causas são questões psicológicas”, comenta, sublinhando que os padrões sociais têm implicações diretas e, muitas vezes, tornam-se obstáculos para o prazer sexual.

Mulheres podem alcançar orgasmo em qualquer idade

Ao contrário do que está estabelecido no imaginário popular, mulheres podem, sim, chegar ao orgasmo em qualquer idade. “Acontece que as mais velhas tendem a ter esses fatores culturais e a repressão sexual mais introjetados”, explica Tami Bhavani. Por outro lado, entre as mais jovens, ela observa que é a idealização de um orgasmo baseado na estética da pornografia que costuma atrapalhar. A terapeuta também assinala que fingir orgasmos é uma péssima ideia: “Quanto mais a mulher fingir, seja na intenção de não desagradar ou para parecer com aquela ideia de prazer que ela viu em filmes e que são irreais, mais ela vai se afastar dessa sensação genuína”.

Para Tami, o Dia do Orgasmo é um dia de valorização da própria vida. “Nos conectamos com o divino, com a natureza e com a nossa essência por meio do orgasmo, que estimula a produção de hormônios como endorfina e serotonina e nos traz uma série de benefícios”, diz, completando que “a energia orgástica permite uma contemplação da vida, do estar vivo e do estar presente”.

Drubscky concorda. Ele lembra que essa reação do corpo, traz diversos benefícios. “É algo que ajuda a aliviar a tensão e as dores musculares, que reduz os níveis de estresse e que, consequentemente, ajuda a dormir”, diz, lembrando ser comum o relato de pessoas que enfrentam problemas com o sono e que se masturbam à noite para, então, conseguir relaxar. “Saíram pesquisas que indicam que o orgasmo ajuda, inclusive, a fortalecer o sistema imunológico”, ressalta, em referência a pesquisas que indicam a possibilidade de um número maior de orgasmos potencializar a produção de imunoglobulina A, que é um anticorpo. “E há também a questão dos benefícios associados à sensação de prazer, de sentir a energia do nosso corpo e da nossa sexualidade”, comenta.

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