
Você pode até não identificar sintomas em si mesmo, mas, se olhar para o lado, encontrará um colega exausto, com dificuldade para se concentrar e se lembrar das coisas, irritado, ansioso e desmotivado. Associados a outras manifestações emocionais e físicas, os sinais caracterizam o “novo mal do século”: a Síndrome de Burnout. Esgotamento completo, a condição, relacionada ao trabalho, adoece um terço dos brasileiros.
Descrita na Classificação Internacional de Doenças (CID) como fenômeno ocupacional, é um estado tridimensional, que envolve a pessoa, o trabalho e o cenário mundial. “Na esfera macro, está o universo da pessoa propriamente dito; em seguida, a conjuntura organizacional em que está inserida e, depois, o mundo globalizado”, esclarece a psiquiatra especialista em Burnout, Alexandrina Meleiro, de São Paulo.
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Coordenadora da Comissão de Estudos e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, ela explica que o problema, crônico e progressivo, pode levar entre um ano e meio e cinco anos para “explodir”. A condição não está ligada apenas à sobrecarga de trabalho e acúmulo de tarefas e funções, mas à frustração pelo não reconhecimento do que é entregue.
“Perde-se, gradativamente, a produtividade e o prazer em executar as tarefas com qualidade. Aos poucos, a pessoa passa a agir no automático e adoece física e emocionalmente, manifestando sintomas de estresse, tornando-se distante dos outros, evitando, inclusive, o contato visual. É quase como uma autodefesa”, detalha.
A psiquiatra reforça que procurar ajuda médica é fundamental, bem como evitar automedicação e o abuso de álcool e drogas, que promovem alívio apenas imediato. “A bebida é um depressor do sistema nervoso central e ajuda a acentuar a depressão. A pessoa pensa que está resolvendo o problema, mas, na verdade, só o está agravando”, alerta.
Gatilhos
Coach e palestrante, Laydyane Ferreira sabe bem o que é viver “no fio da navalha”. Há 12 anos, viu-se obrigada a abandonar o ritmo frenético de até 15 horas diárias de trabalho e mudou, inclusive, de ocupação. Falhas de memória, tristeza profunda, tonturas constantes e irritação foram gatilhos identificados por ela, que tirou um ano sabático para assimilar a experiência.
“Foi uma das maiores lições que tive. Precisava entender o que havia acontecido. Intensifiquei meus questionamentos de missão e propósito de vida e coloquei a felicidade como um valor maior. Entendi uma palavra que mudou tudo: consciência”, conta. Laydyane fez cinco anos de terapia, além de cursos e retiros de autoconhecimento.
Coordenadora de pós-graduação em psiquiatria da Faculdade Ipemed de Ciências Médicas, em Belo Horizonte, Sandra Carvalhais reforça que, mais do que fatores externos, alguns traços de personalidade também podem contribuir para desencadear o Burnout. Segundo ela, determinadas pessoas estão mais suscetíveis ao fenômeno ocupacional. “Quem é perfeccionista tem receio de entrar em embates e discutir posicionamentos ou mesmo não sabe lidar com pressão”, diz.
Tratamento adequado passa por ‘reforma’ nas organizações?
Conhecer-se melhor e mudar a visão de si mesmo não é o suficiente para reverter o quadro de exaustão profissional. Psiquiatra da equipe da Rede Materdei de Saúde, em BH, Thiago Guimarães Machado diz que o tratamento adequado passa por ressignificar a relação que se tem com o trabalho e por uma “reforma” completa das organizações.
“Tratar o indivíduo sem tratar os responsáveis pelo adoecimento dele não trará resultados efetivos. A conduta adequada passa pela parte farmacológica, quando necessária, inclui estratégias individuais, já que a pessoa precisa identificar os próprios limites e os agentes estressores, bem como por uma mudança de postura dentro das organizações”, detalha.
Segundo o profissional, alguns pacientes podem se beneficiar de tratamento medicamentoso com ansiolíticos e antidepressivos, por exemplo, dependendo dos sintomas físicos e emocionais apresentados. Os reflexos do Burnout podem abranger desde queda de cabelo, aumento da pressão arterial e do colesterol a crises de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas.
Gestão adequada
Professora dos cursos de Administração e Gestão de Recursos Humanos das Faculdades Promove, na capital mineira, Letícia Corrêa Ferreira reforça que os gestores devem ser responsáveis durante o recrutamento e seleção de funcionários, observando aspectos comportamentais que possam caracterizar futuros assediadores.
Na avaliação de Letícia, também cabe ao RH acompanhar, detectar e alertar sobre as condutas dos indivíduos e interatividade social no trabalho. O objetivo é valorizar habilidades e competências do ser humano, evitando menosprezo e exclusões.
“O assédio moral é um dos vilões da Síndrome de Burnout. O ato de humilhar, menosprezar, rebaixar, ignorar, excluir e até mesmo aterrorizar as equipes adoece a empresa. Promover trabalho por meio de uma ‘gestão do medo’ gera inconsistência, desconfiança, desmotivação e falta de comprometimento”, argumenta.
Uma gestão adequada, conforme a especialista em RH, passa por motivação, encorajamento da criatividade e por gerar novos formatos e metodologias de trabalho, com espaços competitivos, mas harmonioso. “A estratégia tem que estar diretamente ligada à inovação. Fazer melhor sempre, sem pressionar o corpo físico e estrangular a mente”, afirma.


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