
A epidemia de coronavírus, que já matou 490 pessoas e contaminou mais de 20 mil, provocou uma corrida mundial para o desenvolvimento de métodos de diagnóstico, tratamentos e vacinas, da qual o Brasil não está de fora.
Na próxima segunda-feira, um grupo de cerca de dez pesquisadores vai se reunir com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para debater alternativas de ações nesta e em futuras epidemias virais.
Uma das iniciativas que vão ser apresentadas é a CT Vacinas, projeto ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ao Fiocruz-Minas e ao Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec), que desenvolve pesquisas em biotecnologia. Os pesquisadores buscam formas de facilitar o diagnóstico da contaminação e acreditam ser possível chegar a uma solução viável em seis meses.
“Concluímos que o melhor investimento do país seria em diagnóstico, porque o desenvolvimento de vacinas leva bastante tempo, e a gente não sabe se vai haver necessidade dela no Brasil”, explica Flávio Guimarães, um dos virologistas do trabalho.
A equipe – que conta com mais de 20 pesquisadores, entre professores e alunos – foca exames moleculares e sorológicos de detecção do vírus. O primeiro é um método já utilizado hoje em dia, que usa secreção pulmonar ou sangue para verificar a presença do RNA do vírus no organismo. Já os exames sorológicos (de sangue) seriam uma novidade, capaz de diagnosticar casos em massa se uma epidemia atingir o Brasil – que ainda não teve casos confirmados.
Atualmente, o CT Vacinas está produzindo fragmentos do vírus em laboratório, essenciais para os exames o identificarem. A base para o processo é o código genético do coronavírus, descoberto e publicado por pesquisadores chineses em janeiro. A expectativa de Guimarães é que o governo federal lance um edital que permita levar a ideia adiante. O MCTIC não informa se tem essa intenção.
Vacina distante
Nos Estados Unidos, na Europa e na China, pelo menos meia dúzia de empresas e universidades correm contra o tempo para desenvolver uma vacina, mas pesquisadores avaliam que ela demoraria, no mínimo, um ano para ser disponibilizada. Isso porque, ainda que seja relativamente simples elaborar o produto em si, os testes em pessoas são rigorosos e passam por várias etapas.
“Um exemplo que foi desenvolvido rapidamente é a vacina contra o ebola, que chegou a testes em dois anos”, pondera o pesquisador Renato Astray, à frente do grupo de trabalho do Instituto Butantan para discussão sobre o coronavírus. O próprio centro – um dos principais produtores de vacinas do país – começa a pesquisar meios de vacinação, mas sem pretensão de competir com os desenvolvedores internacionais mais adiantados.
Três deles, as farmacêuticas norte-americanas Moderna Therapeutics e Inovio Pharmaceuticals e a Universidade de Queensland (Austrália), receberam aporte de US$ 11 milhões da Coalizão para Inovações para a Preparação contra Epidemias (Cepi), órgão internacional de apoio a pesquisas.
A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Mayra Moura, destaca que a vacinação frearia a disseminação da doença. “O processo está adiantado. O desenvolvimento inicial da vacina contra o Sars levou 20 meses e foi superacelerado. Uma vacina costuma levar dez anos para ser desenvolvida”.
Quando a vacina contra o Sars – outro coronavírus que assolou a China em 2002 e 2003 – estava pronta para ser testada em humanos, a epidemia havia se dissipado. A criação de um remédio também leva tempo, diz Moura: “Além disso, trataria só quem já está doente, sem o poder da vacina, de evitar circulação”.

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