Embora o comportamento do consumidor tenha alto grau de imprevisibilidade, tudo indica que, este ano, em razão dos impactos econômicos da pandemia da Covid-19, parcelas ainda mais significativas que as habituais do 13º salário sejam destinadas não ao consumo, mas ao pagamento de dívidas e à formação de reservas financeiras.
Ao todo, o abono deve injetar R$ 20 bilhões na economia do Estado (R$ 208 bilhões no país), segundo dados divulgados ontem pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). Os valores são 5% inferiores aos de 2019, o que se explica pelo alto desemprego a pela redução nas quantias individuais do salário extra, fruto da suspensão de contratos de trabalho que prejudicou o cálculo proporcional da remuneração.
No segundo semestre do ano passado, vale lembrar, pesquisa feita pelo Ipead/UFMG sobre a destinação dos abonos natalinos mostrou que metade dos entrevistados da capital pretendia direcioná-los para a quitação de débitos (29,9%) e para constituir alguma poupança (20,5%) – primeiro e segundo lugares entre as escolhas, respectivamente. As compras de fim de ano foram assinaladas por menos de 8% dos ouvidos e ficaram na penúltima colocação entre dez itens citados.
O levantamento de 2020 só sai na semana que vem, mas, segundo especialistas, é possível que o percentual para quitar compromissos e fazer pés-de-meia cresça de maneira contundente. “O desemprego elevado e a queda na renda, em razão da Covid, levam as pessoas a tomarem postura mais cautelosa nos hábitos de consumo. Com isso, a expectativa é de que boa parte dos recursos do 13º seja destinada ao pagamento de dívidas e às reservas”, diz o economista Guilherme Almeida, da Fecomércio-MG.
Isso explicou, por exemplo, o desempenho pífio das vendas em algumas das principais datas do comércio este ano, do Dia das Mães ao das Crianças, algumas com o pior desempenho desde 2016. “Mas cabe destacar que o Natal se notabiliza por um apelo muito emotivo e comercial, o que pode acarretar em destinação de uma parcela grande desses recursos para a compra de presentes”, acrescenta Almeida.
Em relação às viagens a passeio, terceiro lugar na preferência de destinação do abono natalino em BH, em 2019, com 12% das manifestações, a tendência é que passem à lanterna do ranking. “Infelizmente, tudo indica que viajar este ano será bem mais complicado, até porque muitos destinos comuns estão voltando a fechar com a segunda onda (da pandemia), como nos Estados Unidos e na Europa”, afirma a economista e professora de Administração da Faculdade Promove, Mafalda Ruivo Valente.
Mensalidades escolares
Ainda segundo a professora, há um fator que não tem sido muito comentado, mas que deve influenciar bastante a opção das famílias pelo uso do 13º na criação de reservas para fazer frente a importantes compromissos de 2021, além dos impostos de início de ano. “Nas escolas particulares, sem as aulas presenciais, muitos pais se viram forçados a interromper o pagamento das mensalidades. Para renovar as matrículas, será necessário quitar os atrasados, e isso poderá ser feito com a ajuda do abono”, destaca.
Instabilidade recomenda moderação, mas apelo emocional será forte para o consumo no Natal
Suspenso do trabalho desde março, e, em razão disso, com um abono natalino menor a ser sacado este ano, o pizzaiolo Célio Santiago Júnior, que trabalha em uma pizzaria do bairro Cidade Nova, em Belo Horizonte, integra o grande contingente de consumidores da capital que, em vez de sair fazendo compras, pretende guardar o 13º reduzido neste ano para despesas futuras.
“Já tive uma queda em torno de 20% na minha renda em função da pandemia. Com essa crise, vou guardar o pouco que entrar para despesas que aparecerem neste final de ano e início de 2021”, conta. Segundo ele, no ano passado usou o dinheiro para quitar o Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), que estava atrasado. “Acho que essa crise vai continuar e a tendência é piorar”, avalia.
Para o consultor financeiro Carlos Eduardo Costa, Célio está agindo como a maioria das pessoas deveria agir, diante das circunstâncias neste fim de ano. “Em um momento de instabilidade como o atual, e que deve se estender para o ano que vem, a recomendação, mais do que nunca, é de que, se alguém tem dívidas, que as diminua, reduzindo a pressão que fazem na suja vida financeira”, afirma.
“Quem tem reserva, deve aumentá-la. E quem não tem (caso do pizzaiolo), deve providenciá-la para que eventualmente possa ajudar a pessoa a atravessar a crise com mais tranquilidade e menos ansiedade”. Costa prevê, contudo, que boa parte das pessoas, que deveria pensar assim, troque os pés pelas mãos com o 13º. “A decisão acaba sendo emocional. Por isso, é provável que muita gente vá com tudo às compras, buscando compensações após um ano tão difícil”. (Com Marciano Menezes)

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