"Tive medo da minha mãe morrer nos meus braços", conta Marcos Fonseca Barbosa, um médico de Manaus, que optou por tratar na própria casa de sua mãe, gravemente doente com o coronavírus, por falta de leito nos hospitais.
Como médico de emergência, Marcos, de 36 anos, tentou que ela fosse internada em uma unidade de terapia intensiva na semana passada, mas o hospital público estava completamente saturado pela constante chegada de novos pacientes, em uma cidade onde o número de infecções por covid-19 aumentou exponencialmente no início do ano. O pai de Marcos, Glauco Rego Lima, de 72 anos, também foi infectado com o coronavírus.
Sua mãe, Ruth, de 56 anos, estava com febre, passando mal. "Me apresentei como médico, mas eles nos deixaram esperando por quatro horas, sentados em cadeiras de plástico", disse ele à AFP.
"Não posso culpar os meus colegas porque é uma zona de guerra", admite este médico que trabalha em várias clínicas privadas, também saturadas pela pandemia.
Com 2 milhões de habitantes, Manaus já vivenciou cenas de terror nos meses de abril e maio do ano passado, com valas comuns cavadas em cemitérios públicos e caminhões refrigerados instalados fora dos hospitais para preservar os corpos dos mortos.
Mas a situação está pior desde o início do ano: entre 1º e 11 de janeiro, foram registradas 1.979 novas internações por coronavírus, contra 2.128 em abril de 2020, pior mês desde a chegada da pandemia.
Os enterros dos mortos por covid-19 também batem recordes: nos primeiros dez dias de 2021, foram registrados 379, mais do que os 348 de maio.
Improvisar em casa
"Nunca teria imaginado uma situação como essa, nem mesmo nos meus piores pesadelos", diz Marcos.
Ao perceber que sua mãe poderia morrer por falta de leito na UTI, ele assumiu o controle da situação.
"Estava desesperado, tinha medo que minha mãe morresse nos meus braços, numa cadeira de plástico. Num impulso, peguei no braço dela, coloquei no carro e voltei para casa", lembra.
"Liguei para todos os meus amigos e ex-pacientes que tratei em casa para pedir ajuda", diz.
Então, ele conseguiu um cilindro de oxigênio e um ventilador mecânico não invasivo, que instalou ao redor de um leito hospitalar improvisado em seu próprio quarto.
Ruth "deveria ser intubada", mas nessas circunstâncias seu filho procurou alternativas: "eu a mantive viva com um nebulizador" e um cateter nasal para facilitar sua respiração, explica.
"Foram quatro dias direto, sem sair do lado dela. É uma aflição ter que voltar para o plantão, sem estar mais do lado dela", relata. Agora, Ruth é cuidada pela esposa de Marcos, que é professora.
"Felizmente ela está melhor, mas isso não me impede de ficar ligando o tempo todo para ter notícias", conta.
Não querendo levar o crédito por salvar a vida da mãe, Marcos acha que o que realmente a ajudou foi "a vontade de viver e a obra divina".
"É um verdadeiro milagre que ela ainda esteja viva", afirma.

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