
A coluna AskWell do jornal The New York Times destacou tratamentos para aumentar a libido em mulheres. Depois, vários leitores quiseram saber se a cannabis, ou maconha, poderia ser adicionada à lista de remédios potenciais.
É uma questão especialmente relevante agora que a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou um projeto de descriminalização da maconha em nível federal.
A droga, que é a mais comumente usada e é ilegal em nível federal, atualmente é permitida para uso medicinal em 37 estados americanos e para uso recreativo adulto em 18 estados. De acordo com uma pesquisa de 2020, quase 18% dos americanos com 12 anos ou mais haviam usado no ano anterior, e mais de dois terços dos americanos apoiavam sua legalização, de acordo com várias pesquisas.
Para saber mais sobre cannabis e sexo recorremos a vários especialistas, incluindo uma ginecologista que pesquisou o uso de maconha por mulheres.
Conclusão: é difícil dizer com certeza se a planta vai aumentar o desejo ou melhorar sua vida sexual, mas evidências esparsas sugerem que a dose certa pode tornar os orgasmos de uma mulher mais satisfatórios e aumentar seu desejo sexual. Isso ocorre em parte porque a substância pode intensificar os sentidos e também aliviar alguns dos sintomas que inibem o desejo, como ansiedade, insônia ou dor.
Também pode ter efeitos positivos para os homens, além de muitos outros negativos, e as mulheres também devem estar cientes de suas possíveis desvantagens.
Tanto homens quanto mulheres relatam há muito tempo que a cannabis altera sua experiência sexual. Em um ensaio publicado em 1971, o astrônomo Carl Sagan, usuário de maconha de longa data, escreveu que ela "aumenta o prazer do sexo" e "dá uma sensibilidade requintada".
No entanto, há muito pouca pesquisa sobre cannabis e libido, em parte porque os estudos sobre maconha tem sido notoriamente difícil de financiar e a droga continua sendo ilegal em âmbito federal nos EUA. A maioria das pesquisas existentes depende de dados de questionários, que são fortemente direcionados a pessoas que já usam a substância e não são representativos da população em geral, dificultando a obtenção de conclusões consistentes. Além disso, os estudos não fornecem informações confiáveis e precisas sobre dosagem, método de administração ou a hora certa de usar.
Com base nas evidências limitadas, entretanto, a droga parece melhorar a experiência sexual entre muitas mulheres que já a usam.
"Já tive várias pacientes que me disseram: 'Tenho baixa libido. Pode me ajudar? A propósito, quando eu uso maconha consigo atingir o orgasmo sem problemas'", disse Becky K. Lynn, especialista em medicina sexual e menopausa, e fundadora da Saúde da Mulher Evora em St. Louis (Missouri). "Elas também me dizem que a libido aumenta com a maconha."
A dra. Lynn, que também leciona na Escola de Medicina da Universidade de Saint Louis, é a principal autora de um estudo publicado em 2019 que pesquisou 373 mulheres sobre cannabis em uma clínica de obstetrícia e ginecologia no Missouri. Destas, 34% relataram ter usado antes da atividade sexual e a maioria disse que resultou em aumento do desejo sexual, melhora do orgasmo e diminuição da dor.
Estudos também concluíram que algumas mulheres usam para ajudar a controlar os sintomas da menopausa, como ondas de calor, suores noturnos, insônia e alterações vaginais como secura, que podem contribuir para diminuir a libido quando não tratadas.
Além disso, em uma pesquisa online com mais de 200 mulheres e homens que usam maconha, quase 60% disseram que ela aumentou seu desejo por sexo; cerca de 74% relataram aumento da satisfação sexual. Mas o estudo, conduzido por pesquisadores no Canadá e publicado em The Journal of Sexual Medicine, também disse que 16% afirmaram que o sexo era melhor em alguns aspectos e pior em outros, e um pouco menos de 5% disseram que era pior.
A pesquisa sobre o uso de maconha e a função sexual entre os homens também é escassa e pode ser contraditória. De acordo com a Sociedade Internacional de Medicina Sexual, alguns homens relatam que seu desempenho sexual melhora quando usam cannabis, enquanto outros podem apresentar problemas como menos motivação para o sexo, disfunção erétil, dificuldade para atingir o orgasmo ou ejaculação precoce. O uso também tem sido associado a reduções na contagem de espermatozóides, em sua viabilidade, além de menor concentração e motilidade.
Todas as drogas têm potenciais riscos e efeitos colaterais, incluindo a maconha.
Se o seu médico te liberou para experimentar em um local onde é legal, o dr. Peter Grinspoon, médico de cuidados primários no Chelsea HealthCare Center do Hospital Geral de Massachusetts e consultor de cannabis medicinal, aconselhou tomar um "pouquinho" em uma tintura (extrato concentrado da planta) se você for novo nisso –em alguns casos, apenas 1 miligrama de THC (tetra-hidrocanabinol), o principal ingrediente psicoativo da erva–, antes de aumentar lentamente.
"Em doses baixas, a cannabis ajuda a libido, mas em doses altas muitas vezes não é tão eficaz", disse ele, acrescentando que a quantidade errada pode levar algumas pessoas a ficarem paranoicas e ansiosas. A droga também pode inibir o orgasmo, criando o efeito oposto ao pretendido. A dra. Lynn concordou. "Comece baixo e vá devagar", disse ela.
Mas que quantidade é demais? Isso varia de pessoa para pessoa.
Como a planta é conhecida por prejudicar o julgamento, a coordenação e o tempo de reação, aqueles que usam drogas psicoativas antes ou durante o sexo "devem levar em consideração se as pessoas que usam o produto e seus parceiros podem ter um sexo seguro e consensual", disse a dra. Stacy Tessler Lindau, ginecologista na Universidade de Medicina de Chicago e criadora do site WomanLab, sobre saúde sexual feminina.
O uso também pode comprometer o julgamento pessoal sobre a contracepção ou a capacidade de consentir, ela acrescentou. Por isso, mulheres podem evitar produtos com componentes psicoativos ou, se quiserem usá-los, aumentar a segurança fazendo sexo com um parceiro de confiança.
"Sexo com um estranho idealmente não deve envolver intoxicação de nenhum dos envolvidos", disse ela.
O dr. Jordan Tishler, ex-médico de emergência e presidente da Associação de Especialistas em Canabinoides, recomendou experimentar a maconha sozinha nas primeiras vezes e se masturbar, para "entender o que ela faz com o corpo e as sensações".
Fumar ou usar vaporizadores de óleo deve ser evitado, pois podem prejudicar os pulmões, disseram especialistas.
A dra. Lynn normalmente recomenda tinturas, que consistem em extratos concentrados da planta tomados por via oral. É fácil medir o número de miligramas que você deseja usar, disse ela.
Já o dr. Tishler geralmente aconselha seus clientes a começar com 5 mg de THC. Dar uma tragada em um vaporizador de flores de cannabis antes de ter uma experiência sexual pode funcionar mais rápido e de forma mais previsível do que comestíveis ou lubrificantes que contêm THC, disse ele.
"Eu ensino os pacientes a dar uma tragada de uma maneira particular", acrescentou Tishler: "Uma inalação muito profunda e lenta, que permite avaliar a dose que eles estão recebendo".
Existem vários fatores que podem afetar o desejo sexual e a função sexual de uma pessoa, alguns dos quais podem ser abordados em uma consulta médica ou com um profissional de saúde mental.
Se uma mulher sentir dor durante a relação sexual, por exemplo, ela precisa ser encaminhada a um ginecologista para uma avaliação completa, disse Grinspoon. A maconha pode ajudar, mas há mais a se investigar e outros fatores a se considerar em qualquer pessoa que esteja sentindo sintomas físicos desconfortáveis.
"Você pode tratar o sintoma enquanto observa a causa subjacente", disse ele. "Não é mutuamente exclusivo."

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